Da primeira vez que olhei nesse teu par de olhos cismados, quase não prestei atenção, como todo mundo deve (ou não deve) fazer. Passei por eles correndo e me ocupei de aproveitar o barulho amigável do som da sua risada. Logo se tornou um vício te fazer rir.

Passei de novo os meus olhos pelos seus olhos (era pouco evitável), e tomei uma fisgada em algum lugar que não sei se era no peito ou na cabeça: não sabia se era meu coração que de repente bateu mais forte ou a pura curiosidade científica de te entender.

Eu prenderia a sua alma entre as pernas como o botânico pega um anfíbio e destrincharia parte por parte se não soubesse que ao primeiro indício de uma invasão desse tipo, você se retiraria ao mais profundo dessa fortaleza, e talvez eu nunca mais o visse.

Acho que é isso: o motivo pelo qual eu me sinto tão empática à sua presença desde os primeiros poucos dias em que nos conhecemos. Conheço você de outras vidas. Ainda nessa, vivi versões de você. Poucos param para prestar à devida atenção ao seu par de olhos escuros. Mas se o fizessem, veriam de longe a fortaleza em que você esconde o sentir.

Acredite: eu morei em um castelo desses que não era o meu. Me mudei pra dentro de um sombrio ser forte que demorei tanto pra poder entender. Quis ficar ali, por amor ou por curiosidade científica, até saber como era e todos os porquês. Talvez fosse amor, já que mesmo depois de muito não entender quis continuar ali até não ser bem-vinda.

Foi só depois, uma vez dentro e outra vez de fora, que pude ver toda a complexidade de quem você é (e de quem foram os outros) mais de perto, e ali eu aprendi que não importava o quão fundo eu fosse, o quão íntima eu me tornasse, quanto mais barreiras eu quebrasse, novas barreiras surgiriam. 

Você vê agora as razões do meu olhar perdido, como se não estivesse ouvindo uma só palavra do que você está dizendo? Você entende o quanto é difícil conter os impulsos de não te abraçar o tempo todo? Como se parte de mim quisesse aplacar uma dor que desconheço (e que de fato talvez nem exista)?

Vou morrer empática evitando te amar à todo custo. Mesmo que eu saiba que existe algum segredo do destino que me prende aos profundos como você. Antes de você chegar, eu já havia decretado o pagamento da minha dívida com o universo, o cumprimento da minha sina: cansei de me perder dentro de fortalezas que não eram minhas. Mas ainda te olho e no seus olhos, segredos. Um varal de antigas dores penduradas, pingando sangue. Uma lágrima invisível escorre. Trezentas palavras de amor que são promessas sérias demais para sair da boca. Ah, esse terno terreno me acostumou mal.

Evito. Prefiro amar os seus segredos também em secreto. Não se cumpre a mesma sina duas vezes. Quero me convencer de que a empatia é um quase-amor, e o terreno mais seguro que posso pisar agora. Mato os sintomas de saudade quando posso. Deixo bêbadas as ilusões. Maldita imaginação, traiçoeira! 

Mas ser de carne e sangue seu moço, sem as altas paredes de concreto ao redor do teu peito, é um pouco assim: a gente escapa uma ou duas verdades em meio à uma corrente delas querendo pular da boca. A gente não sabe segurar os dedos da pele em questão, tão perto da gente. Queremos fingir que conhecemos o mundo com um punhado de experiências que cabem em um punho fechado, senão menos. Tenha paciência seu moço, com as sonhadoras. Deixe que elas escrevam. Seja a musa inspiradora dessa poesia. Protagonista de uma ou outra fértil imaginação.

De qualquer forma, 
Perdão pelo incômodo. Até mais.

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