As razões que mantém você vivo em mim, como um pinheiro 
teimoso de tronco largo que suporta nevascas, tempestades e até mesmo o implacável tempo, talvez estejam distantes da verdade como nós estivemos de nós mesmos todo esse longo período de distância.

As versões da história que vivemos foi marcada no tempo por palavras escritas que eu insisto em desperdiçar, fazendo um memorial dos mortos à todas as promessas que já trocamos. Talvez essas promessas não poderiam nunca servir pra outra coisa que não fosse prometer.

As palavras são as flores que levo diariamente ao nosso túmulo. São perdões que sussurro aos seus ouvidos gelados e inoperantes. Quando eu me sento e escrevo, estou sentada ao lado do seu corpo cinza, contando histórias de coisas que eu vivi depois de você. Prestando as explicações que eu não pude dizer. Refazendo aquelas velhas promessas como sinal de pura nostalgia.

Um inevitável ritual sombrio que me acompanha e que procuro não tentar fazer mais ninguém entender além de você. 

Como você pôde me soltar nesse mundo sem a proteção das suas asas? Perguntei pra tua foto esses dias. Ela parece estar tão viva que seus olhos me assustam. Como você pôde falhar tão miseravelmente em ser um anjo? Perguntaram dois pares de lágrimas que não pude segurar. Mais cômico do que conversar com as tuas fotos era pensar que alguém precisava estar vivo para ser bem sucedido como anjo da guarda. 

De todas as coisas que eu inspiro e que me fazem sentir a sua falta, a sensação de estar protegida desse mundo vil no abrigo do seu abraço ainda é a maior delas.  Faz parte da minha rotina me fazer lembrar dessa dura realidade. Acordar, tomar banho, trocar de roupa, escovar os dentes, prender o cabelo, entender que o meu sorriso deixou de ser sua responsabilidade e que, a partir desse novo dia, a pessoa que mais se importa com a minha integridade no mundo sou eu mesma, então pegar a bolsa e ir para o trabalho.

Todos esses dias seguindo essa rotina com pequenas alterações. Todos esses dias alternando entre preces para que Deus o protegesse onde quer que você fosse e me ajudasse a encontrar meu próprio caminho. São mil e noventa e cinco preces, mil e noventa e cinco rotinas, mil e noventa e cinco vezes que alguma coisa na rua me lembrou de pensar em você. 

No canto da boca me foge meio sorriso. Apesar de saber que mais sobrevivi do que vivi nesses dias de ausência, e também de que ainda muitos outros mil dias e vidas estão à frente pra me lembrar de que eu estarei sempre sozinha, me faz bem pensar que encarei de frente um dos mais terríveis medos que eu tinha: te perder.

Olhei para os seus olhos assustadoramente vivos naquela foto. Uma sensação de cumplicidade me fez abraçar os joelhos, entrelaçando-os, da mesma forma como eu fazia com o seu braço na rua. Você se lembra? Perguntei pra ela. Você me olhou de volta como se olham as velhas amigas. Sorri.


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