Passei a tarde inteira naquela cafeteria que eu adoro, pedi meu chocolate favorito, quis comer o bolo mais bonito da vitrine e achei que fosse só me sentar e esperar aquilo chegar. Pensei que a alegria daquelas crianças correndo fosse contagiosa e que as paredes claras e decoração sutil fossem inspirar em mim o que eu estava buscando. Tentei me desconcentrar dos meus próprios pensamentos e encontrar uma posição confortável para quando aquela sensação chegasse, mas não chegou. Depois de quinze minutos já sentia os pés inquietos e assistia imóvel à guerra entre meus pensamentos e inomeáveis sensações. No fundo, eu só sabia de uma coisa: eu estava cansada. Lá de dentro, eu tinha um único desejo: eu queria paz. Mas a paz que meu coração precisa não estava ali. 
Não estava no bolo gelado, nem nas crianças correndo
Não estava no copo de cerveja, fosse Brahma ou Original que seja
Por incrível que pareça não estava nem no sexo, mesmo que desprendido, supostamente livre de promessas e expectativas,
Mesmo que a maioria dos meus pensamentos andasse tão carregada de insultos à forma como a nossa humanidade funciona e à indisposições derivadas de experiências que nem cabem dizer, algo em mim dizia que a paz que eu preciso estava justamente ali, no meio do caos: a paz que eu preciso estava em mim.
Sempre ouvi da vida sobre o quanto eu era forte e hoje os olhares assustados assistindo a minha história já não me surpreendem. De alguma forma, sentia uma ponta de orgulho por ter passado por tantas situações difíceis e me mantido de pé (assim como a grande maioria das pessoas). Mas chega um momento em que o coração sente saudade de ser criança e eu não consigo parar de desejar que tudo pudesse ser um pouco menos complicado. 
Porque é tão difícil ser gentil? Manter uma vida saudável, fazer a escolha certa, se importar com o outro? Porque os machismos, os feminismos, a politicagem, a guerra, o ego, o ciúme e o egocêntrismo precisam nos acompanhar em todas as benditas relações que tentamos estabelecer? Porque as nós invejamos as pessoas e tentamos competir irracionalmente com seres que carregam pesos (e destinos) muito diferentes dos nossos? Porque é uma vergonha ser humanamente sincero e admitir as fraquezas que todos possuímos em comum? Acordei criança em um mundo em que as contas vem com juros endereçadas no meu nome e as pessoas estão o tempo todo com medo de serem quem realmente são. De repente escrever uma cartinha de amor, mesmo que fraterno, se tornou ridículo. Mas mudar um status com a mensagem que eu queria tanto poder dizer é proteger o orgulho. De uma hora pra outra, tudo o que eu assisto é o caos de pessoas vivendo e tomando o máximo de ações possíveis em uma busca desesperada pela atenção de outras pessoas, a maioria completamente estranha e alheia à nós.
Porque nós aprendemos a mudar de caráter de acordo com a conveniência mas não aprendemos a nos questionar? Porque será que nos forçamos a viver dentro de um jogo doentio em que perde aquele que ganhar mais títulos humanos demais? Quais são as bases das nossas ambições senão a constante aprovação do invísivel, do desimportante, de milhões de pessoas que mantém os dedos prontos para o julgamento mas pouco sabem sobre a sua história, pouco se interessam em saber? 
Posso me sentar na melhor cafeteria, posso beber todas as cervejas, posso fingir que sou livre e deprendida no sexo, posso gastar todo o meu dinheiro e posso até amar.

Meu coração de menina continua sedento por entender a razão de tudo ter que ser tão burocrático, exagerado, falso imperfeito. Continua chorando e procurando onde caiu o frágil, o simples, as matemáticas relações onde um mais um é sempre dois. Onde problema tem solução. Onde ser um ser humano não é vergonha nunca.

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