Três batidas na minha porta. Ouço de longe no meu quarto, mas não me desperto.
Outras três batidas, rápidas, insistentes, ansiosas. Como quem tem pressa de ser atendido.
De olhos semiabertos  procuro o meu relógio: 4:56h da manhã. “Só pode ser brincadeira”, eu pensei.
No trajeto da minha cama ao seu encontro, ensaiei uma cara de brava. Mas sejamos sinceros: eu nunca soube segurar uma cara dessas pra você.
Abri a porta, encontrei com a sua expressão apreensiva, com certo receio de ser recebido a paneladas, aliviado ao te deixar entrar.
Você me seguiu até a cozinha e continuou me seguindo com os olhos procurando qualquer outra reação à sua presença que não a naturalidade de dispor duas canecas na mesa e passar um café pra nós dois. Essa era pra ser a maior das surpresas, o ato mais inesperado vindo de você. Mas do conjunto de coisas que você não sabe o maior elemento é que não me surpreendo mais.
Eu sabia que a minha naturalidade sentiria na sua pele como indiferença. Mas quem é forte pra mudar alguma coisa às 5h da manhã? As suas primeiras palavras foram arquitetadas para me provocar. Em pé, na porta da cozinha, observando a minha natural indiferença, me disse com um sorriso:
“Você parece desanimada”.
Ganhou de volta um olhar que qualquer mulher dá pra uma cantada manjada do homem embriagado no bar.
“Eu estou”, te respondi. Quem tem força pra mentir às 5h06 da manhã?
Ofendido, você me questiona: “Você sabe que isso aqui é só um sonho, né?”.
“Eu sei”.
E todos esses pequenos fatos contra mim são o alimento da sua alma vaidosa: não conseguir te odiar, não ter escolha à não ser abrir a porta, saber que você só bateria à minha porta por um sonho, reconhecer que não posso fazer cara de brava e de que ainda me lembro, bem vivas na memória, as primeiras palavras que ouvi de você; são alimentos para o seu ego esfomeado e pequenos prazeres para uma mente não tão sadia como a sua.
Você não sabe, mas é isso que respondo quando perguntam de nós: Ele tinha um ego mais faminto que um sorriso. E ambos eram lindos.
Você bebeu do meu café apreciando na boca o gosto de não ter cumprido a missão que saiu de casa para fazer. Bebeu uma expectativa frustrada. Talvez, com um pouco de raciocínio e porque não dizer, sensibilidade, você saberia que eu já não tinha para oferecer o que você tanto procura antes mesmo de sair.
Esse encontro foi bom, no final. Eu te contei uma dúzia de segredos. Uma parte de mim sentia que você, no fundo do seu consciente, já sabia de todos eles. Lembra quando eu te falava que você era muito mais evoluído que eu? Tenho medo disso. Você desvenda os meus segredos apenas observando os meus passos, quem não temeria?
Guardo apenas pequenos detalhes e é a sua surpresa que alimenta o meu ego anoréxico. Nada mais que uma criança fazendo mágica para os pais.
Ouvi três batidas na porta. Eu sabia o que isso significava. A nossa conversa já havia ficado agradável, porque agora?
Mais três batidas, agora parecidas com uma bateria. Um som bem leve de fundo parecia Coldplay. Foi se transformando em música. Foi mudando para despertador. De olhos semiabertos procuro o meu relógio: 7h da manhã.
Hora de levantar.


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