Quando ele chegou eu estava concentrada em fazer alguma coisa que não me fizesse parecer ainda mais maluca. Isso de certa forma significava que eu já tinha um interesse nele mas que a minha maluquice não me deixava admitir. Ser maluco às vezes é agir de acordo com razões desconhecidas por nós mesmos. Eu não sei o motivo de querer esconder dele que eu sou maluca. É provável que ele acabe descobrindo mais cedo ou mais tarde ou nos próximos quinze minutos se eu não conseguir parar de encarar essa pinta que ele tem no queixo e que parece uma azeitona. Uma azeitona linda. 

Ele passou do meu lado segurando um copo de café cheiroso, ou era ele mesmo que cheirava a café recém passado, não sei. Eu acho que o certo era ter lançado para ele um daqueles olhares misteriosos que diz coisas que a gente não pode verbalizar no horário de trabalho. Não por causa da frase em si, mas por causa do tom lascivo que se usa na voz para dizer essas coisas. Fiquei ali paralisada com o olho nas letras do meu teclado, tentando não transparecer a maluquice. Ser maluco também é não saber lidar com essas pequenas interações sociais tão básicas para quem é normal. Acho que ele percebeu, mas que merda.

A verdade é uma só: todo mundo diz que gosta de mulher maluca, que elas são as melhores pessoas, isso e aquilo. Mas ninguém está preparado pra elas. Eles, os outros, adoram rir das nossas piadas infames e achar graça da nossa postura reacionária com relação a graça que eles acham nessas piadas. Aplaudem de pé os nossos ímpetos violentos de ir contra 'todo mundo' e defender a unhas e dentes o que acreditamos, por maluquice, estar certo, mesmo que contrário. "Corajosa. Autêntica. Personalidade forte", eles dizem. Depois de mais ou menos uma semana contigo (esse prazo varia do grau de maluquice de cada uma), é que você passa de autêntica para doida varrida na escala mulheres-que-eu-já-peguei. 

A forma como ele me olhava do outro lado da mesa, dizendo aquelas coisas lascivas com os olhos, me ruborizava e eu procurava não escutar. Nem parecia aquela mulher rogando pragas à Santo Antônio no quarto de um Motel semana passada. Ser maluca também envolve ter esses comportamentos contraditórios frequentemente: Lá no quarto eu tinha coragem de gritar. Aqui não consigo nem cruzar os olhos e dar um sorrisinho. Não sei.

Um dia desses eu abri meu notepad e escrevi uma frase assim: "O grande problema da sanidade, é que ela nos torna insensíveis à loucura que não está em nós". Ficou bem bonito e bem verdade, postei até no face. Se eu fosse normal, também iria gostar de infernizar os malucos com a minha naturalidade, passando de um lado pro outro com um copo de café cheiroso e lançando olhares que dizem coisas. 

Aconteceu que: fiquei um tempão procurando esconder dele o fato de que eu era uma louca irremediável. Mas essa era minha única certeza, não havia nada além disso para oferecer. De tanto fugir do olhar e daquelas palavras que, provavelmente, só existiam dentro da minha cabeça, ele pegou carinhosamente no meu queixo e olhou bem fundo nos meus olhos. Esses, derramavam ainda mais carinho. Com as pontas dos dedos, sorriu gostoso e balançou de leve a minha cabeça, como se brincando de fazer o meu cérebro funcionar. "Doidinha", me chamou.

Acho que eu gosto dele, não sei.


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