Minha mãe, que Deus não a tenha, porque a velha ainda está bem viva e bonitona, fazia (faz) coleção de canecas de cerâmica. Uma das graças de viajar mundo afora era trazer para ela uma caneca de cada lugar. A parede da cozinha dela é lotada de canecas dispostas em fileiras e cheias de poeira; porque verdade seja dita: a gente não precisa de mais de uma caneca pra beber as coisas. No máximo uma para o café e outra para o leite. Não no caso dela, que só toma pingado.

O fato de minha mãe possuir e manter uma coleção tão importante a ponto de conter uma organização por cor, modelo e formatos que vinham de diferentes países e que me custaram peso extra na bagagem, me incomodava. Não porque era uma coleção inútil, já que a utilidade das coleções é justamente essa, mas porque me fazia perceber que eu já tinha mais de vinte anos e não tinha coleção. Era um insulto.
Comecei a olhar ao redor e tentar identificar uma coleção. De cds? Se eu achar uns três aqui jogo fora, nem tenho onde tocar essas coisas. De cartas? Meu Deus, não acredito que ainda tô guardando cartas daquele vagabundo, vou queimar essas porcarias. Que raiva. Eu devo ter coleção de alguma coisa. De problemas? De fracassos? De matchs no Tinder pra quem eu nunca dei um oi? De empregos ruins? Nenhuma dessas coisas parece estar em número suficiente para ser considerada uma coleção, se é que existe isso. Coleção é uma coisa que: não pode servir para nada, tem que ser mais de quinze, passível de organização ou enfileiramento. Um exército parece com uma coleção. Não tenho nem isso.

Pensa, deve ter alguma coisa. Abri o facebook, que é uma coisa que serve pra desconcentrar a gente de outras coisas que precisam ser resolvidas. Olha o Luís, que gracinha. Ele escreve poeminhas pequenos que roubam sorrisos de pessoas que gostam dessas coisas, tipo eu. Nossa, o Marcelo tá bonito nessa foto meio hipster que não dá pra ver ele direito mas tem toda uma arte por trás dessas luzes coloridas penduradas. Que legal esse texto que o Ricardo postou sobre a causa Lgbt. É bom ver que tem pessoas que ainda usam a cabeça pra argumentar. Quem é esse moço aqui que compartilhou uma música do Radiohead? Bonito ele. Gosto bom pra música ele tem, adoro Radiohead. Nossa, esse dos poeminhas bem que podia me dar bola né? Acho que eu vou mandar uma mensagem pra ele. Não, não vou. Enquanto ele não sabe que eu gostaria que ele me desse bola, o valor da bola continua sendo baixo e meu. Prefiro assim. Mas podia pelo menos dar umas curtidas nesses poeminhas aqui, vai que ele se toca. Não, não vou curtir. Vou parecer a louca da coleção de amores platônicos por nerds pseudo-poetas de facebook. 

Opa, espera...
Achei!

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