Eu não sei jogar, meu amor, e desde agora peço desculpas mas vou ter que recusar o seu convite. Não sei brincar de esconde-esconde, gato e rato, pega-pega ou qualquer outra brincadeira quando o assunto é sentimento. Não aprendi a falar nas entrelinhas, a escolher perfeitamente o trecho daquela música sertaneja que vai expressar o que eu gostaria de dizer. Quando eu posto uma nota de Lispector, Vinicius, Quintana, é porque amei suas palavras e não porque quero te atingir com elas. Imagina que triste pra eles, depois de séculos, descobrir que as suas poesias virariam guerras entre amores mal-correspondidos. 
Eu não sei brincar, meu amor, e desde já peço perdão. Se te escrevo essas cartas abertas é porque eu sei que fechado em seu castelo você não pode ouvir a minha voz. Invejo as mulheres que sabem trocar uma voz melosa por um favorzinho bem feito, que sabem te induzir a trocar uma lâmpada ou à jantar no restaurante que ela gosta. Gostaria de ser aquela mulher que sutilmente, te induz a pensar que a ideia foi sua, e como você escolhe bem as coisas! Mulher que faz do beijo um presente e do sexo um prêmio, taí uma aula que não frequentei. 
Eu não sou assim, meu amor, comigo são cartas na mesa, olhos nos olhos, comigo são mãos dadas durante a batalha, eu sou parceira de guerra, de todos os dias, beijo bem dado é certeza, sexo bem feito deve ser regra, o mundo é o mundo e nós dois somos nós dois. Comigo problema tem solução, discussão tem fim com abraço, desafio tem gosto de próximo e felicidade tem que ser estampada na testa. Pra mim amor é jogo de sorrisos e não de egos, seu 'eu-te-amo' é meu tesouro mais secreto, prefiro uma rosa roubada do pé do que mil jóias pedindo desculpas.
Houve um tempo em que eu quis aprender o jogo, quis entender como funcionava, quis poder dizer, como ouvi muitas mulheres dizerem "Ele está na minha mão". No fundo, quando eu ouvi essa frase, senti pena. Pena por saber que com você, o jogo era algo necessário. Que o seu coração se mostrava cada vez menos disposto a viver a vida real, a lutar essa guerra à dois pares de braços. Tive pena porque nesse lugar eu me sentiria suja, eu teria chego ao mais profundo nível de frieza, eu seria só mais uma atriz que escreve cartas e perfuma pra te manter sempre por perto. Eu seria só mais uma sínica derrubando lágrima sem dor pra poder dizer que você ficou por mim. 
Comigo a porta é aberta, e o motivo mora aqui dentro. A minha estratégia é te dar um sorriso tão sincero que você vai sentir o gosto dele na boca depois de dez anos sem olhar na minha cara. Eu fui feita à passarinhos, meu amor, e por isso não posso ver ninguém em jaula, não posso ser a gaiola de nenhum coração. Meu amor é sincero, só faço barulho se for de prazer, só te escrevo se estiver te amando e estou. Mas se você quiser ir ou jogar, meu amor, o que eu posso fazer? Nem brincar eu sei...

Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. É joia rara...
    Um amor de uma mulher assim, não se encontra em qualquer esquina da vida. Mas, se por acaso encontrar, acolha e ame, pois, se não o fizer, perdeste - definitivamente - o maior presente que poderias ganhar.
    Parabéns, Bharbara!
    Um grande abraço!

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    1. Um Abraço Amigo!
      Sempre bom te ter por aqui :)

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