Na carta que ele nunca me escreveu continham inúmeras palavras que ele não disse, mas pensou. Ele guardava os pensamentos, e por consequência as palavras, como se fossem um tesouro escondido no fundo de um oceano. Se sentia mais forte por estar oculto, se sentia mais seguro no escuro, via no espelho uma imagem distorcida de si, e no fundo temia que mais alguém a visse.
Nas palavras que ele nunca me disse continham coisas agridoces que nem beijo depois de briga, igual tapa na bunda de mãe. Ele era um menino emburrado e de definições. Definia tudo: ficar bravo, ficar triste, o porquê de amar, e quando esquecer. Dá até medo essa maneira definitiva com a qual ele decide as coisas.
O lado bom de ser um menino emburrado é que quando ele dá um sorriso, clareia tudo ao redor. Você pode acompanhar as pessoas disfarçando o olhar de contemplação, como se fosse algo raro feito arco-íris, que você quer olhar mas sem parecer com cara de boba que nunca viu um arco-íris. O lado bom de ter um sorriso raro, é quando você, menina singela, descobre que é motivo dele.
O meu menino acordou cedo, olhou no espelho e respirou bem fundo, como quem quer encontrar um alívio. Ele vive fechado numa torre feita de nós de gravatas e algumas conquistas. Saiu às 7h para ser homem. Pediu um pingado e um pão na chapa. Entregou meia dúzia de relatórios. Foi ao banheiro, e lá tem espelho. Respirou fundo.
Eu fico aqui de longe observando onde meu menino vai. Tipo mãe que não pode podar as asas mas tem que colocar limite no voo. Fico aqui fazendo coleção dos meus segredos, esperando pra recontar as minhas histórias. Permaneço à uma distância segura, e nela aguardo o dia do meu menino deixar de se ver monstro e encontrar comigo do lado de fora desse castelo.
Tem tanta coisa que eu gostaria de mostrar. Do outro lado da rua tem um pôr do sol de várias cores. Aqui é o meu trabalho de todos os dias. Ali é onde eu tomo café. Debaixo do meu travesseiro existe uma carta de poucas palavras com o seu perfume. Foi tudo o que eu guardei de você. Naquele baú estão as coisas que aprendi até agora. Metade delas você ensinou, a outra metade foi a tua ausência. Naquela garrafa guardei em álcool as lembranças gostosas, que é pra não apodrecer.
Essa é a minha casa de paredes cor de alguma coisa. Tem grama, cachorro e criança lá fora. Tem piscina porque aqui de tão pequeno faz calor. Esse é o filho que nosso amor não fez, mas batizei com o nome que você queria. Ele é mais uma das coisas que tive que fazer ao te esperar.
Como eu gostaria menino, de ver os seus passos emburrados ao lado dos meus. Assim a cor da minha parede não seria novidade. Assim o nome do meu filho também seria o teu. Assim o teu alívio seria o meu beijo e não um profundo respirar em frente ao espelho. 
Mas em um mundo de grandes meninos e pequenas mulheres há tantos desencontros, que já não sei o que esperar do amanhã. Aí é que eu me lembro de você dizer, com seu sorriso de pôr do sol e arco-íris, que o amanhã na verdade não existe.


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