Eu entendo de gostos mais do que de sentimentos. A minha fria natureza esteve sempre ocupada demais para me preocupar com tudo aquilo que eu sinto. Eu passei a vida sentindo coisas sem perceber, até experimentar o gosto da saudade.
Tá ficando feio, eu sei. Mas só hoje eu não me importo de ser feia, de ser menina, de não ser aquela adulta-maravilha que encara uma foto sua sem chorar. Hoje eu resolvi dar uma folga pra minha humanidade e segurar com força o travesseiro enquanto as minhas lágrimas rolavam.
Saudade tem gosto amargo e invade sem pedir ou avisar. Saudade não respeita mágoas. Toda vez que sinto a sua falta sou obrigada a assistir a uma guerra entre todos os fatos pelos quais eu nem deveria lembrar do seu nome, e os motivos pelos quais ele nunca deixa de estar presente em mim.
Eu sou só mais uma em um milhão de pessoas que não deveriam estar sentindo o que sentem. Algumas raiva, outras inveja, eu saudade de você. O mundo ao nosso redor funciona como aquela amiga que, depois de muitos abraços, resolve te dar uma chacoalhada e te proíbe de tocar de novo nesse assunto.  Então você não fala. Não escreve. Faz cara de quem não sente. Mente pros amigos. Esboça aquele “quem?”, de quem nem sabe do que estão falando,  quando perguntam de você. Um teatro mal feito de todos os dias que não muda nada, senão a sua imagem de pessoa forte que supera tudo e anda pra frente.
Vão fazer três anos, e não três dias, que estou engolindo a saudade de você. E eu passei os últimos dois mascarando essa verdade. O que eu aprendi, com tudo isso, são duas coisas: nem tudo é mérito, já que não encontro um só motivo concreto pra continuar te vendo nos sonhos e respirando as suas cartas, e que nem todos os conselhos são boa compra, já que isso de fazer o coração andar é um tanto quanto involuntário.
Pensar, sentir ou falar sobre a sua falta já foi motivo de vergonha. Enquanto escrevo, eu imagino uma porção de coisas negativas, desde a sua indiferença até as eternas caras de “não acredito que você ainda ta nessa” dos meus amigos. Mas contra fatos não há argumentos,  diria você.  E eu tomei uma importante decisão.
Quando o coração da gente empaca, a gente corre o risco de acabar machucando uma porção de inocentes no caminho. Então coloquei você no bolso, e entrei numa dieta de sentir saudade sua. Mudei de rota e ajustei meu foco pra outras áreas que merecem atenção. Me fiz entender que na vida, a gente não pode ser bem sucedido em tudo, e me dei o merecido descanso por ter tentado, e muito.
Você, provavelmente já tomou essa decisão e deve estar, como sempre, milhas à frente. Mas essas palavras são para aquela parte morta dentro de você que não se importa em vestir a capa forte e superior. Estou escrevendo essa carta para aquele que me beijou entre lágrimas quando eu disse que poderia estar indo embora. Estou escrevendo para aquele que sentiu uma pontada no estômago cada vez que eu cruzei algum oceano. Alguém que no fundo no fundo, já se importou. E por mais que digam ser burrice, me dei o direito de sentir o que eu sinto. Já foi respeito. Já foi desprezo. Já foi dor. Já foi físico. Mas ontem foi saudade.
Eu não sei bem onde começou essa ideia ridícula de que não podemos ser humanos e sentir coisas ilógicas que não sabemos de onde vêm e como gerir. É burrice sentir saudade de você? Mais burrice seria sentir e ter que fingir que não sinto para convencer um mundo que nem me sustenta do quanto sou forte e madura. Uma coisa dessas só pode ter vindo de uma cabeça que acha que não pode atender uma ligação antes do terceiro toque para não parecer “disponível demais” (Sim, existe).
Eu sou disponível demais. Sou humana demais e frágil demais. Eu nunca tenho certeza se vou conseguir. Continuo contando as horas de 5 em 5 no relógio analógico. Não faço ideia de pra quê servem todos os talheres na mesa e sinto uma puta falta de você. Esses são os meus defeitos e também os meus orgulhos. Vou continuar caminhando com eles até virar foto na parede e não precisar me esconder. Um dia desses você vai passar como tudo na vida, mas até lá, dou o direito do tempo trabalhar e o meu de sentir.


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