As minhas cartas aos seus olhos serão sempre mais bonitas.

Não importa se escrevo sobre afrodite ou sobre as lamparinas de Istambul. Não importa se olho adiante e vejo um futuro brilhante prestes a acontecer.
É naquele momento, naqueles milésimos de segundos onde seus olhos cruzaram os meus pela primeira vez, naquele momento onde todas as nossas mágoas e lágrimas não sonhavam em existir, que está presa e presente toda a minha poesia, onde eu não faço esforço e muitas vezes apenas assisto as palavras escorrerem pelos meus dedos.
Mas eu não posso mais ficar ali.
Todas as vezes em que eu me sentar e emocionar uma dezena de pessoas discursando sobre o gosto doce da sua presença, uma parte de mim caminha para o passado e me lembra que, apesar de ser imutável, ele não retorna nunca. Ele permanece ali, guardando pedaços de nós que já não nos pertencem.
As minhas cartas a você serão sempre cheias de entrelinhas. Mesmo aquelas em que não me adianta mascarar as palavras. O mundo todo sabe, ou pelo frio na barriga, ou por uma lágrima no canto do olho, que falando de amor eu estou sempre falando de você.
Te esperar é inevitável, mesmo que não seja sábio.
E mesmo que eu me force à dar passos pra frente, volta e meia vou olhar para aquele caminho e procurar as suas pegadas ao lado das minhas. Volta e meia eu vou sentir o teu cheiro nos lugares onde você nem passou.
Fui porque não tinha motivos para ficar. E porque essa grande mentira era mais confortável do que encarar a realidade das nossas desculpas. Eu poderia passar a minha vida toda ali revivendo os mesmos momentos, mas essa idéia era assustadora. Eu fui, porque alguma parte de mim custava a acreditar que algum dia você perdoaria os meus pecados ou venceria a guerra contra o seu orgulho.
Fui porque não conseguia mais encarar esses milhões de textos publicados por aí que diziam tudo o que eu queria dizer à você. Porque a sensação de ter as minhas palavras expressas por estranhos deixou de ser libertadora há muito tempo. Fui porque não tinha muitas esperanças de que você me desse de novo os seus olhos pra te dizer essas verdades. Nem eu tinha certeza de que, por mais querer, eu conseguiria.
Talvez por estar cansada dos meus próprios suspiros diante de uma foto sua. Colocaria a culpa até no preço da gasolina, e nem dirijo. Eu fui porque já anseava ir quando você estava aqui. Mas me mantia presa por uma dúzia de sorrisos sinceros. Hoje já nem sei dizer se ficaria por eles.
Eu fui, porque não ter motivos para ficar era um bom motivo para ir.
Porque depois de você eu passei a viver essa busca obsessiva por ser feliz de novo. Eu fui porque o mundo me disse que se eu não encontrar essa felicidade em mim, não posso me juntar à tua.
Talvez eles estejam certos como você estava.
Talvez os conselhos deles façam sentido como os teus.
Quem sabe no mar ou no céu eu encontre um caminho que faça sentido sem os seus passos.
Quem sabe um dia desses,
sem perceber,
meu coração desista de olhar pra trás.
Até lá eu vivo
e revivo
Através de palavras, sons, cheiros
Os motivos pelos quais ainda estou aqui.
Antes de ir:
Era você.


Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. O importante é viver na felicidade.
    Seja lá de que maneira for.
    Gostei da tua carta. Objetiva e com uma escrita irrepreensível.
    Bárbara, tem uma boa semana.
    Beijo.

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    1. Obrigada pelo elogio e seja bem vindo sempre!
      Um ótima semana!
      Beijão

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  2. Emocionou-me...
    Abraços, Bharbara!

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