E eu e o mundo paramos meio segundo pra sentir o impacto daquela palavra. Meio segundo em que eu não consegui piscar, porque desejava que ele tivesse me dado qualquer sugestão que não fosse aquela.
Seria tão mais fácil ter me mandado ao quintos dos infernos ou ter dito que não queria mais me ver pintada de ouro. Eu iria chorar e sofrer dois dias e pronto. Entraria em uma jornada de filmes românticos e chocolates infinitos até ganhar mais dois kg e começar a me preocupar com a dieta. Mas não. Ele me olhou com aqueles olhos de facas e abriu de novo a porta. Mesmo se ele não tivesse verbalizado isso, o mundo teria parado comigo do mesmo jeito só com aquele olhar.

Ele me pediu para voltar e naquele momento, eu percebi que nunca havia saído dali. Permaneci ao redor da nossa casa, observando nossos passos dados a quatro pernas, saboreando antigas risadas e brincadeiras, arrumando pela centésima vez as almofadas, tomando o cuidado de seguir atentamente cada um dos seus conselhos.

Permaneci a poucos metros dali, porque ficar ou ir embora eram decisões que exigiam uma força que eu infelizmente não soube onde encontrar. Porque a pequena distância era mais confortável do que encarar os velhos problemas e porque eu tinha medo até de reviver as alegrias.

A gente sempre quer que as coisas sejam simples. O que eu mais ouço por aí é a galera discursando sobre menos mimimi e mais atitude. Mas nada disso aqui é simples: Nem ir, nem ficar. Nem amar e nem desistir. Todas as decisões geram impactos que vão mudar muito mais que o próximo café-da-manhã. É como voltar no tempo e pisar num inseto e mudar o curso da história da humanidade sem querer.

Eu não sou a mesma que saiu por aquela porta há 5 anos. O que é que vai acontecer agora que estou mais magra e de cabelo mais comprido? O que eu vou fazer com as minhas manias novas, com as pintas novas que o sol me deu e que ele ainda não conhece? O que eu vou fazer agora que já estou na 5ª temporada de uma série nerd que só passei a gostar no ano passado? Quem garante que essa mulher de batom vermelho vai ser tão amada quanto àquela com jeans largos e camisas amassadas?

Ele podia ter me pedido qualquer coisa, poxa. Podia só ter me olhado e com os olhos me alvejado de acusações impronunciáveis como sempre fez. Podia ter me dado um tapa ou um grito, menos me deixar ali com aquele “volta” nas mãos.
A partir dali, eu teria que decidir. Ou sair do redor da nossa casa e dar passos pra frente e cada vez mais longe, ou entrar nela novamente e encarar aqueles mesmos, ou quem sabe novos desafios.


Comentários
0 Comentários

0 comentários:

Postar um comentário