Antes de mais nada, vou contar uma história rápida pra vocês. Era uma garota no último dia do último mês de aulas do Ensino Médio. Tinha 17 anos e poucas chances, muitas dúvidas e quase nenhum medo. Quando descobriu o trabalho, ainda aos 14 anos, fazia serviços gerais como assistente de cabeleireiro em pequenos salões de beleza na capital. Descobrindo o trabalho, descobriu também uma paixão: o mercado da cosmética, da estética e da moda e todo o extenso leque de oportunidades que ele tinha para oferecer. No início daquele ano, em 2010, essa garota prestou o vestibular para o que então parecia ser um investimento de alto risco: a primeira Graduação Tecnológica em Maquiagem de uma das maiores e mais importantes capitais de moda do país, na Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo. 

Bruna Nogueira é maquiadora, brasileira residente em Los Angeles, formada em Artes Plásticas pela Escola Panamericana de Artes de São Paulo, já atuou em mais de 20 produções cinematográficas incluindo "Jogos Vorazes" e "Teen Wolf" e é dona da escola de maquiagem Hollywood MakeUp Lab.

Há cerca de cinco anos atrás, um movimento importante dentro do mercado da estética estava se formando. As mulheres brasileiras começariam a se interessar cada vez mais pela imagem pessoal. Surgiram as blogueiras, as Youtube gurus, os tutoriais de maquiagem e de moda;  o interesse pelos produtos importados e marcas de maquiagem consagradas no exterior triplicou, surgiram milhares de lojas virtuais direcionadas para esse público dentro de todas as mídias: facebook, instagram, sites colaborativos de vendas e etc; algumas das grandes empresas de cosméticos perceberam esse movimento e trouxeram suas filiais para cá, passamos a ter acesso à gigante francesa Sephora, e com ela a maioria das marcas de maquiagem que, ou você ama ou nunca ouviu falar.

Camila Coelho é blogueira e maquiadora brasileira, mora nos EUA, começou a carreira na internet fazendo vídeo tutoriais de maquiagem para o Youtube e hoje seu blog Super Vaidosa conta com uma média de 10.998 acessos únicos diários.

Essa menina de 17 anos, apostava nesse movimento como um alavanca para a própria carreira e decidiu que não havia um momento melhor do que aquele para começar. Por inúmeros fatores e infortúnios que não cabem aqui agora, apesar de ter sido aprovada no vestibular com 50% de bolsa, ela não pode participar do curso naquele ano e passou esses últimos 5 anos assistindo o mercado crescer com as mudanças que já ela havia percebido que estavam prestes à acontecer.

Em 2014, depois de um período de recuperação e crescimento pessoal,  a garota da nossa história decidiu insistir no próprio sonho e matriculou-se no mesmo curso, então com o dobro de conteúdo e uma infra-estrutura muito maior.

Essa garota sou eu e estou escrevendo esse texto porque estou cansada.

Na época em que decidi o que queria pra mim, pra minha vida e pra minha carreira, pouquíssimas pessoas reconheceram a intenção de me profissionalizar ou me ofereceram apoio de qualquer tipo. Ainda hoje, quando digo o que estou cursando, algumas pessoas não exitam em questionar com perguntas do tipo “Mas você não vai estudar?”, ou “Mas e depois, você vai fazer uma faculdade de verdade né?”, ou ainda “Porque não tenta fazer outra coisa primeiro, depois você investe nisso?”.

Nos bastidores de grandes produções do cinema, de desfiles, editoriais de revistas e de outras produções artísticas que você provavelmente consome, existe uma equipe de maquiadores, figurinistas, assistentes e diversos outros profissionais que são essenciais para a qualidade do resultado final de um projeto.

A verdade é que o sistema de ensino na minha área ainda é fraco e pouco reconhecido aqui no Brasil. Poucos cursos oferecem o treinamento que realmente precisamos e os que fazem, nem sempre possuem valor acadêmico, como é o caso da Graduação Tecnológica.

Essa semana li uma matéria no site da revista Época (Link Aqui!), que me deixou bastante indignada e trouxe à tona um sentimento que venho guardando, talvez só por preguiça de não me envolver em polêmicas com pessoas sem a menor capacidade de argumentar, mas que chegou ao meu limite.
Uma entrevista breve com Alice Ferraz, relações públicas, blogueira, fundadora e CEO da Alice Ferraz Comunicação Integrada e da F*hits, que inclui 27 blogs com mais de nove milhões de visitas únicas, 30 milhões de page views por mês e quatro milhões de seguidores no Instagram, hoje um dos principais nomes da moda no Brasil e um dos 500 nomes mais influentes do mercado mundial, segundo o site britânico de Negócios da Moda, o Business of Fashion; falando sobre a iniciativa de um curso tecnológico em Mídias Sociais Digitais, voltado para blogueiras. Na coluna do jornalista Bruno Astuto, foram citadas algumas das reações negativas do público que, provavelmente pouco informados e alheios ao real impacto dos avanços desse mercado na economia nacional e internacional, ironizaram a criação do curso com frases do tipo “Fazer uma faculdade ‘de verdade’ ninguém quer” ou “Era só o que faltava... Como serão as matérias? Look do dia?, Como tingir o cabelo de louro?”.

A Blogueira e empresária Alice Ferraz.

Hoje, com o avanço da internet e a tão sonhada oportunidade de ter e expor uma opinião sobre tudo, a qualquer momento e em qualquer lugar, as pessoas não conseguem mais perceber o quanto essa postura é absurda e prejudicial (ou simplesmente não se importam com nada que não afete à própria vida e falam sem medir conseqüências, sejamos honestos).
Queremos colocar o outro, a sua liberdade e sua natureza dentro de padrões que nos satisfaçam ou que não perturbem a nossa sagrada zona de conforto. Queremos ter o direito de dizer o que o vizinho deve ou não fazer com o próprio talento, com o próprio corpo, com a própria carreira e com a própria vida. Se pode ou não se casar com uma pessoa do mesmo sexo, mesmo sendo um adulto capaz de discernir e tomar as próprias decisões. Se deve ou não recorrer ao aborto de uma gestação indesejada, mesmo que seja fruto de uma violência sexual traumática. Queremos ter o direito de dizer para a amiga do lado que ela não deveria se sentir assim tão mais bonita por ter perdido apenas 2 kg com a dieta nova, já que ela continua muito acima do peso e fora dos padrões. Ou será que é você que, na verdade, condena a pequena felicidade da outra porque não consegue sentir o mesmo?
Eu me lembro que, em uma das minhas primeiras discussões em defesa da escolha da minha carreira, ouvi de uma pessoa muito próxima a frase "Quem avisa amigo é". Desculpa, quem dá palpites no escuro é pretensioso. Amigo é o que está junto, o que se interessa, que oferece apoio e nem sempre tem que concordar.

Simone Barcelos, Especialista em Maquiagem, Pós-Graduada em Cosmetologia pelo Senac, é fundadora da Escola Madre.  
Será que essas pessoas, que sustentam o preconceito contra o meu mercado, e também contra os alunos e profissionais das artes em geral, gostariam de ter o mínimo de talento e de coragem para investir naquilo que realmente gostam e no próprio crescimento profissional? Será que, quando eu critico a escolha profissional do meu colega, não estou apenas induzindo-o a fazer à escolha à qual eu mesmo fui forçado e por isso, me sinto frustrado?

O que venho observando com a vida, apesar da pouca idade, é que aqueles que são realmente bem sucedidos e realizados em qualquer área da vida, pouco tempo possuem para criticar, acusar ou até opinar sobre as decisões alheias. Eles estão quase sempre ocupados criando, inovando, revolucionando mercados, deixando a própria marca no mundo, trabalhando arduamente e sendo muito, mas muito felizes.


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