Eu fiz café, mas não está adoçado.
Tentei não fazer muito forte dessa vez.
Coloquei a tua xícara vazia de frente pra mim, mesmo sabendo que você não toma. Segurei a minha xícara perto do rosto e inspirei aquele cheiro, mesmo sabendo que não era o teu. Qualquer cheiro de qualquer coisa boa me dá 5 minutos de sorriso.  Não sei o que vicia mais: sentir você ou me sentir viva.
Eu fiz café, e sentei na nossa mesa de quatro lugares.
Não tinha ninguém além de mim, e a tua presença nas coisas.
Abri aquele livro e fiquei ali fingindo que as palavras dele podiam me tocar como as suas mãos.
Parei pra pensar no quanto era improvável que eu acabasse te amando. Que eu acabasse amando qualquer coisa como resultado do que me tornei. Pensei no quanto era impossível deixar de ouvir meu cérebro gritando pra não entrar nessa fria de estar com você. Lembrei de como todas as circunstâncias faziam de você a pior escolha que eu poderia fazer naquele momento. Sorri ao lembrar dos sorrisos que você me deu. De cada beijo e da ponta dos meus dedos deslizando sua pele de sol.  Sorri com o barulho da chuva caindo lá fora, com os milhões de significados que ficaram entre nós.
Fiz café
Fiz um doce
Fiz almoço
Fiz amor com outra pessoa
Fiz um texto sobre você
Fiz rotina
Mas a vida que você levou continua contigo.
Pequei em deixar você entrar. Pequei ainda mais em te deixar ir. Estou pagando meus pecados desta e de outras vidas quando olho ali pra sua xícara vazia e você não está. Meu espelho me condena todos os dias por não ter sido o motivo do seu ficar. Por não ter sido mais forte que a sua dor de não estar aí. Nem melhor que as razões que te trazem e te levam de uma vida pra outra. Eu e o meu espelho não nos conversamos mais. Eu disse a ele pra me chamar apenas quando voltar a refletir a sua imagem do meu lado.
Sorri por saber que sou boba.
Por ver aquela xícara vazia ali
E me lembrar que além de você não gostar de café
Sua xícara anda cheia bem longe daqui.



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