Sempre fui a mulher do E Se.  E essa é uma daquelas manias que irritam as pessoas que não possuem. É tipo ser ansioso perto de uma pessoa calma, tira a paz da cara dela. Mas assim como ser ansiosa, questionar o E Se de todas as coisas é algo automático e meu, além de inevitável. Eu estou sempre contando com as probabilidades e a definição de Tranquilo é quando não mais que duas me atravessam o caminho e eu não tenho que ficar martelando E se’s na cabeça. Infelizmente isso quase não acontece.

Ontem à noite estávamos nós três conversando: eu, seu cheiro no meu travesseiro e a saudade de você. A gente sentou pra uma conversa de boteco daquelas em que não pode sair nada senão a mais refinada filosofia. Falamos de nós, de passado, de futuro, contamos um pouco de cada um, falamos de vontades e medos e sobre aquela busca que todos nós vivemos e parece nunca ter fim. A saudade acabou concluindo que essa busca é individual. Cada um de nós precisa descobrir o que está buscando e como alcançar. O teu cheiro não disse muita coisa, ficou dando suspiros e fitando o horizonte como se cansado por dentro. Mais lá pro fim ele se pronunciou: disse que o que todo mundo quer mesmo, é amor. Eu fiquei escutando um tempo. Mastigando as palavras dessa conversa bizarra aqui no meu peito. Sentei na beirada da cama como quem vai rezar, e soltei: Mas e se?

E se fosse verdade essa história maluca de que o que a gente quer mesmo, é amor? E se a gente não fosse essa mistura complicada de instintos e desejos sem nome contra querer, de fato, um amor? E se, por uma loucura, a gente não tivesse que escolher entre ter um mundo todo de possibilidades e sensações? E se a gente só quisesse mesmo isso: amor? Já pensou que louco seria isso? Aquele rapaz desajeitado que trabalha do seu lado, magricela e não muito bonito, poderia ser de repente, o cara sensível e dedicado que você passou a vida pedindo à Deus. As milhões de sensações maravilhosas que só uma noite regada à muita bebida e quantidades vazias de pessoas agradáveis aos olhos pode dar, de repente, passaria a ser desnecessária ou pelo menos não tão importante assim.  Não existiriam mais brigas entre casais que tinham tudo pra ser felizes juntos mas daí apareceu qualquer outra coisa no meio e pronto: você começando do zero outra vez. Se a gente quisesse amor, amor mesmo, daquele que se constrói todo dia e dá um sentido pra vida que até então era fria e cheia de ego, uma solução mágica pros problemas do mundo apareceria diante dos nossos olhos. Pode até ser que Deus adiasse o apocalipse.


E amor a gente quer. Mas não só isso. A gente quer amor, mas quer físico. A gente quer o amor daquele rapaz lindo e forte de olhos claros formado em medicina que cozinha e sabe cantar. A gente quer o amor do chefe, da vizinha, do namorado da melhor amiga, do cara que não está nem um pouco interessado em amor. A gente quer amor, mas quer quantidade. A gente quer ter o conforto de chegar em casa aos cacos e ser remendado por um abraço que é único no mundo. Mas também quer sair e se quebrar todo de novo em dezenas de outras bocas. A gente quer amor sim. Mas quer poder. E daí a gente faz uma liquidação de valores e esquece por um tempo em tudo o que acreditava. O sentimento passa pro segundo plano, mas é o preço, e a gente paga. A gente quer amor, mas não só pra ser amado. A gente quer mostrar pro mundo a outra pessoa como se fosse uma nova aquisição. A gente quer criar regras e colocar limites naquilo que às vezes nem está sentindo, mas tem que provar que está. Amor e segurança, afinal antes umas contas pagas de água e de luz do que sorrir um pro outro à luz de uma vela (um beijo, Eletropaulo!).  A gente quer combinar o amor com tudo, menos com aquilo que ele realmente é.  Mas e se, já pensou que louco? E se a gente parasse de querer e começasse a apenas amar?
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