Quando eu era menina, e olha que eu demorei muito pra deixar de ser, lembro de fazer amizade até com as plantas: tinha amiga flor, amigo gato, cachorro, passarinho, tinha amigo imaginário, tinha melhor amiga, melhor amiga depois da melhor amiga, tinha até uma classificação de quase melhor amiga pra aquela que era legal mas não muito chegada, sabe? 
Ah, eu tinha problemas também: Não poder comprar a mais nova barbie que passou no comercial do SBT era algo triste e bastante sério. Corria pra chorar no colo das amiguinhas. E quando me apaixonei pela primeira vez? Não tinha 10 anos completos, tanto eu quanto ele, e isso era um problema enorme! Como é que a gente ia se casar na praia agora em dezembro que faz calor? E o vestido? Só fazem de mulher grande, como é que vai servir em mim? E quem me consolava, claro, eram as amigas. Escrevi 10 cartas pra elas falando sobre ele, o amor, mas nem uma só pro coitadinho. Ah: escrever cartas também era um problema sério. Uma tarefa que eu levava com muito zelo, carinho e glitter, todas as 45 vezes por mês. 
Aí fiquei um pouquinho mais velha, mas ainda menina. Os problemas começaram a ficar ainda mais sérios: O amor era um pouco mais possível e até queria me beijar. E agora? Eu nem sei como se faz isso. Corri contar pra amiga, que me ensinou numa laranja, a outra num copo com gelo, a outra no dorso da mão, até lambida no espelho eu dei, mas no moço nada. Eu era aquela amiga dramática que prefere continuar a novela que partir pro fim do filme. Depois de um tempo uma "amiga" acabou percebendo que o moço era até interessante, e beijou. Que vida dura: no mesmo dia perdi o amor e a amiga.
Esses problemas também eram sérios, e exigiam táticas de guerra. Quem vai deixar de falar com quem, quem ficou contra quem, e se eles namorarem? Meu Deus, vou morrer de tanto sofrimento. Mas eu era forte e sobrevivi, graças às minhas revistas Capricho e muitos capítulos da Malhação. (O namoro deles durou 6 anos).
Cresci mais um tantinho, ainda uma menina. Daí não tinha mais pra onde piorar. Os problemas eram sérios mesmo. Eu namorava um rapaz, e o amava perdidamente. O jogo já era mais complexo: você pode até fantasiar a sua casa na praia e seus três filhos com ele, mas ele não pode nunca saber. Por fora, você é uma mulher madura, segura e independente (só que não, me perdoem a modinha).
As amigas, ficaram duas ou três, que também namoravam. Amiga solteira só servia quando vocês terminavam e você tinha que sair pra balada mostrar o quanto estava feliz (só que não, gente desculpa). Amiga parceira é amiga solteira, já diziam os sábios.
Daí eu cresci. A menina ficou lá trás, e a coisa ficou feia. Amigas eu tinha mais de 1000. Umas cem na faculdade, umas 15 na vizinhança, no trabalho mais umas 20. Fora aquelas do Facebook, do intercâmbio no Canadá, da infância, do interior. Acreditei que as coisas iam finalmente melhorar, até perceber que, na verdade, eu não tinha ninguém. Confiar em uma nova amiga, por mais legal que seja, havia deixado de ser o simples risco de perder o namoradinho. O que entrou em jogo foi meu emprego, meu casamento, meu segredo mais bem guardado, meu maior medo ou minha verdade mais sincera. Aquela mão estendida querendo saber do seu dia passou a ser a mesma coisa que coletar veneno pra espalhar julgamentos maldosos entre as outras "amigas".
Algumas pessoas aprendem rápido a fazer parte do jogo e continuam se relacionando, mesmo sem confiar. Vestem a máscara que a sociedade quer ver e saem abraçadas com pessoas que nem gostam, mas precisam. (Tem um nome pra isso... Acho que é networking). Eu não aprendi. Me afastei, me isolei, e assumo total responsabilidade. Não vejo o menor sentindo em fazer parte de um jogo que nunca soma nada além de benefícios ilusórios. Pessoas que apenas suportam aquilo que você quer se convencer de que está fazendo certo, mas no fundo, sabe que não está. 
Um dia desses me peguei com saudade daquelas amigas, lá do tempo das cartinhas, barbies e revistas. Quando a gente não tinha nada pra apontar uma na outra, já que estava todo mundo descalça, descabelada e com a barriga cheia de bolacha. Daquele tempo em qualquer bobagem inocente rendia uma hora de risadas histéricas e a gente ficava competindo quem ria mais alto. 
Uma vez eu estava chorando num canto escondido do prédio e uma menina me encontrou. Ela não me conhecia, nem sabia o motivo do meu mar de lágrimas. Abaixou perto de mim, e colocou a mãozinha no meu rosto. "Não chora...".
E Aquilo, meninas-mulheres, era o começo de uma amizade. Sem interesses em comum. Sem personalidades-gêmeas. A gente vivia brigando por ser tão diferente, mas continuava grudada. Desde aquele tempo eu já sabia, que mais vale uma amiga diferente, cheia de defeitos, mas ali do teu lado, que dezenas de pessoas perfeitas que mal podem esperar as tuas costas virarem.
Você já disse o quanto ama a sua amiga hoje?





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