E você com esse jeito faz burrice ser domingo preguiçoso de sol.
Eu não encontraria, mesmo que procurasse muito, qualquer razão pra amar você mais do que qualquer estranho na rua. Não são os seus olhos de bola de gude. Não é essa cor de caramelo do teu cabelo. Não posso nem dizer que é por causa do seu sorriso. Cê já viu o que tem de sorriso bonito nesse mundo?
Já fizeram poesia sobre olhos bonitos e sorrisos largos apaixonados, apaixonantes. Sobre corpos desenhados pela mão de Deus. Falaram de olhar, de boca, de presença e de saudade. Mas ninguém contou ainda o que é ser, por uma fração de segundos, o motivo desse teu sorriso. Lá vai:
As horas passam dentro de um minuto
Quatro galáxias me atravessaram, nem senti.
O gosto da tua risada por aquela brincadeira boba fica na boca que nem bala.
Mas não quero nem lembrar do som,
Daquele barulho de tiro que faz o exato momento
Em que você pára e me olha
Congela o tempo em 25 tons de verde
E respira fundo como quem sabe que é de verdade
Mesmo sem razão.
Eles quiseram falar de saudade, os poetas. Mas ah, Camões, você não teve ainda esse sorriso. Vinicius, coitado, morreu sem te cruzar o caminho e sentir o teu cheiro de roupa lavada. Pode até ser que Manoel soubesse um pouco do que estou falando, O moço tem talento pra falar do impossível.
Mas saudade são essas paredes brancas mudas me encarando.
Engolindo horas, sequestrando sorrisos, me emudecendo também.
Olho pra elas e vejo nossos corpos ali amassados, a bagunça das nossas mãos que não sabem onde pegar primeiro. Permaneço inerte enquanto a bandida me traz o gosto da tua pele de volta à boca. Não tenho vontade de me mexer. Pelo menos não enquanto a lembrança me prender naquele momento.

Eu e as paredes brancas mudas
Estamos aqui te querendo.
Eu e os portões
Os cantinhos
Os colchões
Eu e os vizinhos
As fofoqueiras
As vilãs
Nós estamos todos aqui
Com saudade desse teu gosto
Desse teu cheiro
E da cor dos seus lábios inchados contra os meus dentes.

Saudade é esse segredo que eu finjo que não sei o tempo todo. Que fica aqui sentado enquanto eu faço rotina. Volta e meia, por um barulho ou outro, por uma música qualquer, me dá um piscada que não sei se é sarcasmo ou amizade. E daí me vem de novo tudo: cheiro, gosto, cor, você.

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