A primeira vez que eu li essa notícia, uma correnteza de pensamentos e sentimentos diferentes me roubaram qualquer reação. Por um momento eu quis amaldiçoar a vida, não me conformando com algo tão aparentemente injusto, cego, desleal. Foi como se estivesse acontecendo comigo, ou pior, com alguém próximo que eu amasse muito, e foi impossível não me comover. 

Pra quem não sabe, Britanny Maynard é uma jovem californiana (linda) de 29 anos que descobriu um tumor cancerígeno no cérebro sem possibilidade de tratamento ou cura. Britanny havia se casado com seu melhor amigo, Dan Diaz, em setembro de 2012, após 5 anos de namoro.  Formada em Educação pela Universidade de Berkeley, foi educadora em orfanatos carentes no Nepal, em Singapura, Camboja, Laos e na Tailândia. Após a descoberta da doença, ela decidiu se mudar de sua casa em São Francisco para Oregon, o primeiro estado norte-americano que permite o suicídio assistido para pacientes terminais, e cumpriu o desejo de ter uma morte tranqüila ao lado de seus familiares e amigos, no último sábado 1° de novembro, sob prescrição médica.

"Eu acredito que essa seja uma escolha ética, e o que faz ela ética é o fato de ser uma escolha" _Britanny Maynard.

A família e amigos mais próximos de Britanny vão levar pra sempre na memória uma mulher que viveu intensamente seus 29 anos nesse mundo. Além de ser uma ótima mergulhadora, ela também encarou um curso de escalada no gelo, e um de seus desejos finais foi conhecer o Grand Canyon, famoso cartão-postal do estado de Arizona, que descreveu como “uma das maravilhas naturais mais fabulosas do mundo”.


Britanny deixou incontáveis lições sobre a vida para todo nós.  
Sem palavras, ela nos convida a questionar se estamos realmente vivendo aquilo que somos.  Durante 29 anos, ela viveu o que acreditava e o que amava. Ela nos mostra como, esse tempo todo, o medo da morte não passa do medo de não ter mais tempo pra fazer aquela viagem ou dizer que ama aquela pessoa, coisas que as obrigações vivem nos fazendo adiar. Britanny tomou uma decisão sob a paz de ter ao seu lado as pessoas que realmente a amavam antes de partir.  Ela escolheu dizer sim para o sonho de educar crianças em países muito distantes do seu, e também para o amor sincero de um amigo.  Ela escolheu encarar alturas e profundidades que passamos a vida evitando. Ela sabia, em alguma parte oculta de si, que amanhã poderia ser tarde. 
E não foi.



Britanny não se tornou apenas uma bandeira a favor do direito de pacientes terminais terem uma morte digna, decidida e sem dor. Isso foi só mais um dos legados que ela deixou. A morte dela é um convite a desafiar o impossível e duvidar do amanhã. A questionar se de fato, nossos sonhos são estrelas brilhando a quilômetros de distância, ou objetivos que podemos conquistar um pouco mais a cada dia. Nos convida a duvidar de mentiras que nos tiram do foco e nos fazem acreditar que ter dinheiro, ou tempo, ou um sobrenome, é o único meio de nos proporcionar algumas alegrias durante a vida. Britanny Maynard não tinha mais tempo. Não era uma celebridade. Provavelmente estava longe de viver todos os seus sonhos. Muitos deles foram conquistados através de um trabalho que desempenhou com dedicação. Ela nos permite perceber que sempre há um caminho, aqui e agora. 
Basta conseguir enxergar.



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