Trilha Sonora:



O mundo todo mudou, e nós sabemos disso.
Eu assisto aos olhares assustados dos mais velhos quando, ao entrar em um elevador, antes de olhar nos olhos e dizer bom dia, sacamos nossas pequenas armas de aceitação (os smartphones) e mergulhamos em um mundo alheio à tudo o que é real e que de fato nos ensina.
Eu entendo eles.
Todos os dias, recebo e-mails de leitores que me pedem para transformar em prosa aquela meia dúzia de palavras que nem eles mesmos conseguem explicar o porque de nunca serem ditas. Esse é um trabalho do qual gosto muito, mas por outro lado, penso em como é triste saber mais do seu amor pelo João do que o próprio João.
Nós nos tornamos pequenos deuses famintos pela adoração dos outros. Nossas vidas passaram a ser medidas em likes e visualizações. O sucesso não faz mais sentido se não for postado no Instagram. Deixar de olhar no olho de alguém que precisa da nossa atenção por 2 minutinhos, só pra checar aquela mensagem no whatsapp se tornou a coisa mais normal do mundo, apesar da violência que é. Nossos corpos ocupam a mesma sala, o mesmo restaurante, o quarto do melhor amigo, a cama do amor da vida, mas e nossa alma onde está?
Um dia desses, preste atenção em como um olhar de um senhor ou senhora dentro do ônibus ou na fila do supermercado parece perdido e vazio. Eles correm procurando alguém que esteja de olhos atentos ao mundo e de cabeça erguida. Alguém que não se incomode em trocar duas palavras com um velho de voz tremula que não seja, de repente, seu avô.
Nós estamos tão obcecados pela atenção do mundo, que não percebemos que dessa maneira, deixamos de dar atenção para os que compõe esse mundo.
O ‘Eu’ nunca foi tão grande. Grande demais para caber em dois corações. Grande demais para tentar entender como a mente do outro funciona. Grande demais para aceitar que nem tudo cabe nas nossas expectativas. Que somos pequenos e frágeis diante das verdades da vida. As nossas certezas continuarão mudando. Mas depois que essa mudança se tornou motivo de vergonha, passamos a esconde-las ao invés de crescer e aprender.
Vira e mexe, eu abro as portas da minha vida para um estranho. Ouço as suas histórias, tento me vestir da sua pele, ler o que vai além das suas palavras mas escorre pelos seus olhos. Vira e mexe, esses estranhos do destino acabam me ensinando algo sobre alguém mais próximo e até sobre mim. Vira e mexe, o estranho me faz perceber o quanto minhas loucuras são comuns e quanto minhas fraquezas são especiais e únicas, como as suas.
Mas isso,
A gente não encontra nas páginas do facebook.
Tá la fora, 
Na vida.
Comentários
0 Comentários

0 comentários:

Postar um comentário