Tocou o telefone.
Reconheci o fungado do outro lado da linha. Era Raquel.
“Ele me traiu...” ela disse.
Eu fiquei sem o que dizer.
Na verdade há um monte de verdades que pode-se dizer num momento como esse. Mas essas mesmas verdades têm como requisito um coração saudável e disposto. Caso contrário, se tornam meras palavras dispersas numa mente confusa.
“Vocês terminaram?” eu perguntei.
“Ele foi embora!” ela engasgou.
Eu escutava o barulho do choro e ficava imaginando esse som viajando pelos fios dos postes até chegar ao meu ouvido.
“Quer vir pra cá?” eu perguntei.
“Dói tanto...” ela disse, agora em soluços.
Eu sei. Já estive lá, nessa dor. Não dá pra dividir ela em motivos, é como um tiro de bala perdida: não se sabe de onde veio. Passa rasgando, e sempre pelo peito. Gosto amargo na boca e outras coisas desagradáveis.
“Eu só queria que essa dor passasse logo...” ela disse.
Eu respirei bem fundo. Quis dizer a verdade.
Falar pra ela que, bem, não vai passar.
Ela vai se arrastar até um local seguro, e como um soldado ferido de guerra, ficar ali até parar de latejar. Isso leva um tempo. Na vida real é quando as coisas simples perdem a graça. Ir pro trabalho, fazer mercado, brincar com o cachorro, ler. Eu apelidei isso de Etapa um.
Depois disso, ela vai precisar decidir entre ficar ali ou continuar andando. A grande maioria das pessoas continua. As outras, a gente vê nos jornais. Essa é a etapa dois.
Mas passar, de um jeito que não dói nem incomoda, isso não vai nunca acontecer.
Vai existir sempre uma foto que você não está procurando mas acaba aparecendo na tela do seu computador. Um ou outro filme que lembra uma cena da tela da vida real. Uma ou outra frase que alguém que ainda está na etapa um desabafou no twitter, e fez você suspirar. Fora o fato de acordar todos os dias e enfrentar o buraco no espelho. É, vai faltar uma parte sua. Você aprende a caminhar sem ela, mas não é algo que dá pra ignorar. Alguns sentem tanta dor com essa perda que procuram desesperadamente encontrar algo para colocar no lugar. Um vício, um hobby, alguém. Mas nem sempre dá certo.
Passar, não passa. Depois de quantos anos forem. Você ainda vai sentir arrepios ao escutar os primeiros três acordes daquela maldita canção. E vai mudar de expressão quando tiver que cumprimentar alguém com o mesmo nome, involuntariamente. Pisar nos lugares onde houveram histórias então, só se for muito forte.
Eu fui. Voltei lá naquela rua depois de muito tempo. Sem motivo nem medo de ser vista. Eu já não tinha pra quem dar explicações. O plano era soltar só uma lágrima ou duas, mas foi complicado. Essas coisas são sempre tão alheias à nossa vontade...
A única coisa que posso dizer, claramente, sobre aquele dia, é que foi a dor mais intensa que eu já senti por escolha. Por pura vontade de saber se o tempo já havia feito o trabalho dele. Já que uma das coisas que a gente mais escuta durante esses estágios todos, é que o tempo cicatriza todas as feridas.
“Vai ficar tudo bem” eu menti pra ela.
Ela respirou fundo.
“Vai. Vai sim”.

Comentários
0 Comentários

0 comentários:

Postar um comentário