Ás vezes quando eu  me deito na minha cama pra dormir, isso toma algum tempo, então eu começo a falar comigo mesma. E eu não sei de onde essa conversa vem, mas algumas coisas acabam soando bastante verdadeiras pra mim.
Noite passada eu estava me perguntando porquê as pessoas gastam tanto tempo em problemas superficiais. Porquê se apegar em coisas tão pequenas? E então eu recebi a resposta, sussurrada pela minha própria voz: quando uma pessoa encontra algo para se preocupar, ela agarra isso com força. E mesmo inconscientemente, ela usa toda sua energia para manter isso por perto. Nós precisamos encontrar alguma coisa para dar sentido à vida, porque não existem razões naturais para se viver. Então nós colocamos isso nos ombros de outras pessoas. Marido, namorado, pai, mãe, filhos. Ou no nosso trabalho, emprego, estudo. Na nossa religião nos dizendo que existe um Deus no controle de tudo. Nós criamos sonhos para dizer à nós mesmos que estamos indo para algum lugar. Então tudo o que temos feito até aqui para alcançar esses sonhos passa a fazer sentido. Mas sem tudo isso, se não houvessem sonhos, nem família, nem trabalho, e nem Deus, e nem sociedade nos dizendo que nós temos que ter sonhos, família, trabalho e Deus... Que resposta você daria para a sua alma insistente, perguntando “Porquê eu estou vivo?”. “Porquê estou respirando?”.

Eu não estou julgando todas as razões que nos mantiveram vivos até aqui. Apenas tenho curiosidade em saber se outras pessoas no mundo já encontraram razões diferentes das nossas. Se existe alguém nesse mundo que soube dar uma resposta que silenciasse a alma, alguma que não envolva explicações do tipo o amor de Deus, e “a minha família precisa de mim” ou “quero ter uma família”, ou “meus filhos são a minha razão” (e a razão deles, será ter filhos?), ou “Meu namorado(a)/cônjuge é a razão”. Eu procuro saber se existe alguém que encontrou de fato, um motivo fixo, imutável, um motivo que não está preso à pessoas, porque elas se vão e levam com elas o nosso sentido. Algo que não esteja ligado à trabalho, porque nenhum deles altera o nosso final. E à Deus, porque Ele possui o próprio sentido.

Há alguns anos atrás eu tive a minha primeira paixão adolescente (tarde, por volta dos 16 anos). E eu me lembro de como eu sofria e me apegava, e amava e sonhava, me lembro que o dia todo girava em torno daquele sentimento. Mas o objeto, o dono desse amor enorme, não era meu amigo, nem sequer um colega, nós apenas estudávamos no mesmo colégio em salas diferentes. Eu passei cerca de dois anos mastigando isso. Tive todas as chances do mundo de concretizar aquilo que eu sentia. Mas dentro desse tempo todo, nós nunca trocamos uma só palavra verbal. Dois anos de olhares de sinais.
E depois de tudo isso, já mais adulta na fase dos 20 anos, eu olhava pra trás e achava engraçado. Porque é que eu não fui logo falar com o rapaz? Porque eu passei tanto tempo com isso nadando no estômago em vez de colocar logo um ponto final?
Porque eu não o amava.
Eu amava ter alguém pra amar.
Eu amava ter alguma coisa pra sentir e pra me preocupar. E pra sonhar e planejar, e conversar com as amigas, e dar risada. Mas não tinha espaço pra ele nisso tudo.
E hoje eu vejo que eu não sou a única que segurou numa razão tão... Frágil, pra colocar tempero na vida. E quanto menor o horizonte de uma pessoa, quanto menor o mundo em que ela vive, menor e mais banais serão as suas razões de viver. Os motivos pelos quais ela passa tempo chorando, ou rindo, ou conversando, pedindo conselhos, tentando manter isso por perto.

Porquê você está vivo?


Qual a razão do seu respirar?

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