Eu mordi, pelas minhas contas, mais de trinta travesseiros.
Mordi de raiva, porque saudade é quase uma raiva. Quando eu percebia, já estava abraçada neles como estaria ao teu corpo. Só me dava conta da loucura que estava cometendo quando não conseguia contar as pintas das tuas costas na fronha branca. Quando inspirava o mais fundo possível e mesmo assim não sentia o teu perfume, nem o cheiro forte da tua pele cansada. Não posso dizer que eu não teria mordido, de saudade e de raiva, se o travesseiro fosse mesmo você.
A frequencia diminuiu muito. Eu detesto me encontrar nessa situação. É como estar acordada dentro de um sonho e não conseguir separar a realidade da fantasia. Como atravessar um arco-íris e não encontrar uma mísera moeda de ouro no final. E, de qualquer forma, não acreditar que realmente exista esse tesouro, é também acreditar que jamais será você.

Eu
daria
tudo
pra
ser.

Eu me atrevo à um sorriso maldoso no canto da boca, imaginando você assistir. O travesseiro no teu lugar, braços e pernas sobre eles, prendendo num golpe onde se pode morrer em paz. Você seria capaz de dizer que não gostaria de estar ali? Seria? Seria capaz de não olhar, com os olhos de dentro, e semi cerrá-los da forma como sempre faz? Retorcendo-se numa cadeira, à poucos metros, fechando os pulsos como se explodisse um instinto predador? À quem pertencem esses braços? E esse colo, de quem é? Quem possui o direito de segurar firme na raiz do meu cabelo e me mandar gemer? De me dar nomes sujos de presente?
De dizer
baixinho
no meu ouvido
palavra nenhuma
e frases demais?
À quem pertencem os lábios, o beijo no canto da boca, a cintura que você gosta tanto de segurar firme, marcar território, abraçar? E de quem é mesmo, as pernas longas que você joga pra cima, para todos os lados onde pode aguentar? De quem é a cara de dor que eu faço só pra te ver delirar? O respeitoso silêncio contra tuas palavras sempre tão íntimas e violentas? Quem é o dono? Quem as profere? Quem recebe urros mudos em êxtase como resposta? De quem é a mancha escura debaixo do seio esquerdo, pequeno, aquele que parece ter sido moldado na forma das tuas mãos? Aquele que não se contém em enrijecer perto do teu hálito quente? Quem é o proprietário das mãos atadas, presas à tua força, àquela quem você quer e precisa tanto mostrar que é frágil demais sob o seu corpo, que está à mercê dos teus desejos mais primitivos, dos teus instintos todos, dos teus pensamentos mais secretos? A visão das minhas costas e de todas as minhas cores, à quem pertence? E os meus olhos fechados no último segundo de nós? Se são teus, os toma agora. Mas se são meus, eu os dou à quem quiser...

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