Eu o conheci em um tempo em que o resto do mundo eram cinzas de sonhos queimados e fracassos repetitivos. Quando nada parecia valer realmente à pena e todas as pessoas eram iguais. No primeiro cruzar de olhos, talvez por força do hábito, fomos indiferentes ao mesmo tempo. E a rapidez com que nos ignoramos recíprocamente fez acender em mim uma pequena chama, a curiosidade. Peguei seus olhos caçando os meus mais duas ou três vezes, em dias casuais. Dizem por aí que os opostos se atraem, mas o que nos trouxe mais próximos, e mais tarde tão inevitávelmente inseparáveis, foi aquilo que possuíamos de igual. Existem coisas que só os olhos dizem, e não é necessário mais que um minuto de um olhar para saber que alguém carrega a mesma dor que você. Essa empatia torna tudo mais fácil. Tanto que as primeiras palavras que trocamos não foram ditas entre estranhos, mas entre almas que, alheias à nós, há muito tempo se conheciam. Essa frase não vem ao caso agora.
O que vem ao caso,
O que realmente importa aqui,
Foram cento e duas noites. 

Ok. Deixei esse espaço para que você pudesse pensar em prazer. Mas não foi só isso.
Sim, nós dividimos alguns colchões e estragamos alguns estrados de madeira. Demos fim à tardes sem sorrisos e à vizinhanças silênciosas. Quebramos algumas barreiras de pudor pra que pudéssemos nos sentir vivos, e além disso, livres. Exploramos todas as sensações térmicas existentes. Mordaças, cintadas, arranhões, palavrões e 'eu te amos'. Sim, isso tudo existiu. Mas não é o que estou querendo expressar agora.
Encontrar alguém, dando os mesmos passos no escuro, carregando o mesmo peso nas costas, alguém que sobretudo, descobriu sozinho o caminho do labirinto, e mesmo tendo caído tantas vezes, não desistiu de andar, significa esperança. E esperança é o que nos mantém vivos, cada um na sua escuridão. 
Então nós dividimos cento e duas noites (e eu entendo que depois de todas essas revelações se tornará inevitável não pensar em prazer), trocando filosofia sobre tudo o que somos incapazes de compreender, mas por algum motivo, estarmos juntos nos fazia grandes e fortes o suficiente para acreditar que sim, somos capazes. Ensinando um ao outro, mesmo sem querer, à dar os passos no escuro que ainda não se conhecia. Tentando nos proteger, juntos, de novas cicatrizes, e quando inevitáveis, tentando aplacar a dor com um abraço que, acredite, tinha esse poder. Trocando idéias mirabolantes sobre o universo e seu funcionamento, que sempre acabavam em dois corações agradecidos à Deus por poder fazer parte de algo infinito. Tão infinito quanto aquilo que sentíamos quando estávamos perto. Quanto aquilo que eu sentia, trocando calor e batimentos cardíacos com alguém que (não vou me atrever à dizer essa frase também no passado), eu amo demais.

Não, não faz tanto tempo quanto parece. Talvez por isso eu não esteja interessada em detalhar essa bonita longa história entre nós dois. Às vezes acredito que na verdade, não existe história. Um coração grato por ter tido a oportunidade de ser feliz, mesmo que uma única vez, nessa longa e difícil jornada da vida, é tudo o que resta. Tudo o que restou.

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