Nada deixava seus olhos mais tenros que a considerável quantidade de pele flácida ao redor deles. Pálpebras fundas, escuras, cheias de linhas e vincos . Ela pode não estar confortável com a atual imagem que vê diante do espelho todas as manhãs, mas eu aprecio cada nova linha, ruga, ou marca de expressão que os anos lhe deram. Essas marcas me lembram da finitude daquilo que nós amamos. São o sinal de todos os minutos, horas e dias em que eu gostaria de poder trocar pelas obrigações para estar do lado dela, mesmo que sentadas, em silêncio, numa tarde escaldante do verão de Jales, como ela gosta de passar a maior parte do tempo agora.
Algumas coisas nunca mudam, diziam velhos sábios. E partes dela, como o gosto duvidoso por reality shows e novelas da TV aberta, continuavam intactas. A personalidade dela impressa em mim é tão determinante quanto a cor da minha pele. A necessidade do silêncio, a voz de simpatia forçada no telefone, a mágoa fácil e definitiva contra pequenas ofensas, dormir mastigando palavras, evitar confrontos, tomar café, chorar. Tudo em mim lembra ela, ás vezes contente, outras dolorosamente.
Eu me lembro da imagem dela sem precisar de foto. A força e imponência da bonita senhora que segurava minha mão apertado no vagão do metrô. Eu demorei vinte anos para reconhecer a paciência que ela tinha ao me dar tantos alertas e orientações. A doçura oculta por trás das falsas expressões de raiva que usava para me conter. A preocupação, o medo, um quase desespero ao andar comigo pelas perigosas ruas da Sé, inevitávelmente sozinha. Aos 50 anos, ainda atraía olhares de todos os lados, mantinha namoros secretos, amizades temperadas de adolescência, gostava de jogar buraco com a vizinha, de pintar as unhas compridas de vermelho e fazer banquetes de natal. Fumava. O dia todo e à noite antes de dormir. Mas era perfumada com o quê se podia comprar naquela época. Demorei vinte anos para entender que, algumas vezes a nossa mesa de almoço foi apenas uma fatia de mortadela frita e um prato de arroz, que eram meus, feitos pelas mãos dela, com fome ou sem. Que nenhum desprezo pelo meu teatro de lágrimas era verdadeiro. Aquele olhar desviado do meu, impaciente, era a reação de alguém que também não sabia lidar com a minha dor. Foram vinte anos para descobrir a posição complicada em que ela se encontrava, divida entre o amor pela filha, e todo seu ódio e ciúmes, e o amor por mim, que queria entender toda a confusão, que queria um mediador, um advogado, intervenção divina (ou qualquer coisa).
Fazem 22 anos.
E eu nunca acreditei muito nesse tempo.
Digo, que ele chegaria. Que eu existiria nele e ele em mim.
Ela sempre será a minha primeira referência de mãe. Não importam quantas outras que quiseram esse lugar (ou que assim o foram), se manifestem. Olhar para ela, e seu olhar brilhante, pequeno, distante; a face cansada, o peito marcado; o barulho dos passos arrastados e vagarosos pelo chão, é saber que aquela mulher caminha cada dia mais perto do seu descanso, e que imagem da senhora forte, lúcida, segura de si, teve fim. E, mesmo que esses dias ainda sejam incontáveis, e que Deus ainda não tenha determinado qual será o momento de tirá-la de mim, esse incômodo no coração permanece. De ser impotente. De não ser capaz nem suficiente. De não poder aliviar, da maneira necessária, nem retribuir um terço do amor que ela sempre teve por mim. Mas eu fiz uma promessa, e essa, nesse universo ou em qualquer outro, eu vou cumprir.


Minha avó, minha mãe, tudo o que eu sou.

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