Essa semana durante o jantar, minha esposa soltou essa. Eu até percebi que ela havia ficado mais quieta esses dias, mas fiquei na minha. Eu estou sempre na minha. Sou assim, mais quietinho mesmo. Ela sabe disso, sempre soube. E eu acho que não mudei muito desde que nos conhecemos. A verdade é que me considero um ouvinte melhor do que palestrante. Penso tanto, que quando percebo, acabei dizendo menos do que gostaria. Ela é completamente o oposto de mim: fala por nós dois, e eu adoro ouvi-la. Ela não apenas fala, mas sente o que diz. Ouvir ela contar sobre o seu dia, tão detalhadamente, é como assistir uma peça de teatro que envolve todos os gêneros. Mas no dia em que ela me fez essa pergunta, como de costume, acabei não respondendo o que gostaria. "Porque eu gosto de ouvir você falar" eu disse, na tentativa de paparicá-la. E por ser um tanto melhor com as letras do que com as palavras, eu escrevi uma carta pra ela.

"Acho que não fui suficientemente sincero com você outro dia.
Você me perguntou o motivo de eu quase não falar sobre mim mesmo. Em partes, a resposta que eu te dei é verdadeira. Eu gosto das suas histórias. Adoro o som da sua voz. O sentimento que você coloca em cada frase. É como se você fosse uma atriz só pra mim. A melhor delas, aliás. Mas nós, pobres mortais que não temos o dom do dialogar, precisamos usar outras ferramentas. Então eu queria dizer que, na verdade, eu falo de mim o tempo todo.
Falo de mim quando observo você tomando o café da manhã enquanto lê uma revista. No meu olhar estão descritos os milhares de sentimentos que a sua presença me traz. Digo que me sinto o homem mais sortudo do mundo, todos os dias. Mas a gente às vezes tende à acreditar que certas coisas não são tão necessárias de se dizer.
Falo de mim quando chego cansado do escritório, e abro a porta de casa sorrindo. Estou dizendo que cada dia cansativo vale à pena por poder chegar em casa e te ver. E que tudo o que eu passei antes de você chegar só fez sentido depois de você. Estou dizendo que não me imagino sem você vindo me abraçar na entrada durante a semana.
Falo de mim quando saio pra jogar meu futebol. Você já percebeu o suspiro que eu acabo soltando ao me despedir, mesmo que por poucas horas, de você? Como você conseguiu se tornar tão indispensável? A ponto de eu precisar me policiar o tempo todo pra não acabar vivendo só de você? De me esforçar pra jogar um futebol com os amigos, só pra me convencer que eu te amo de um jeito normal?
Eu falo de mim quando você fica doente. Digo que gostaria de ter a sua força, digo que sou apaixonado pela sua fragilidade. Digo que essa dualidade é um dos mistérios que me prende à você. Quando estou ali, olhando você dormir de narizinho vermelho, acabo dizendo entre uma batida cardíaca e outra, que tudo o que eu mais amo no mundo precisa melhorar.
Quando a gente discute -correção- Quando você discute comigo, e eu acabo te abraçando pra aplacar seu nervosismo, acabo dizendo que você é linda quando está brava, assim mesmo, em silêncio e com sorriso.
Eu falo com os olhos quando você está tentando me provocar. Você passou de lingerie na minha frente esses dias, assim: como quem nem percebeu que eu estava ali. Eu não disse uma palavra, é verdade. Meus olhos estavam gritando por mim. Eles berravam que mais ninguém no mundo consegue me acender da forma como você faz. Que eu desejo até as pintinhas do seu corpo. Que esse sorriso maldoso no canto da sua boca me leva à loucura. E daí não deu mais tempo de dizer nada. 
Não se preocupe comigo. Eu posso me atrever a falar de sonhos, de vontades, de sentimentos ou sensações que me dizem respeito à qualquer hora. Mas sempre que eu estiver falando sobre você, seja com o corpo ou com o coração, vou estar falando um pouco de mim. 
Não se esqueça por um segundo sequer, que somos um".

Acho que não preciso mais dizer.
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