Andamos juntos à passos rápidos e rítmicos sem nos notar. Talvez por sermos centenas de milhares, os mesmos iguais e tão diferentes. Trocar a ideia do cansaço, do chefe, da happy hour no fim do dia pelo complexo pensamento sobre quem é essa pessoa involuntária e desconfortavelmente colada no seu corpo, à quem pertencem os braços tão friamente sobrepostos ao redor  quase ao seu colo, e de qual das pessoas que compõem esse mar de gente, pode estar vindo este ou aquele perfume, pode passar despercebido pelas mentes mais singelas, mas não pela minha. Eu imagino a história de cada pele que toca na minha, de cada corpo que me empurra contra outro corpo, de onde veio e para onde está indo, se tem medo de trovões ou se ama alguém. Imagino o nome escrito debaixo de cada aliança, combinando com o nome à quem pertence tanto a jóia, quanto o amor. É o meu jeito meio excêntrico de passar pelos 30 minutos mais espremidos de cada dia.
Vira e mexe, eu arrumo uma paixão de metrô.
São olhos que me lembram outros olhos, perfumes que me agradam, é uma linha marcada em direção ao queixo, ombros largos ou nem tanto, uma expressão séria que dá vontade de agradar, de fazer graça até conseguir um sorriso. Desses que a gente gosta de observar sem que eles percebam, e que a imaginação já faz papel suficiente por nós dóis, já que estamos assim, tão inevitavelmente próximos...
Esses dias, fui a paixão de metrô de alguém.
Sem interesse nenhum de disfarçar a pressão dos olhos claros sobre o meu rosto. Quando eu me fazia distraída, olhando a janela ou algum ponto qualquer, podia enxergar seu sorriso maldoso no canto da boca, como quem diz "Por favor... Eu sei que você quer olhar pra mim também". Rapaz alto, maxilar marcado, barba por fazer, vestido na mistura de um jeans casual e uma camisa branca bem passada. Quando eu notei que ele me observava, já estava perto o suficiente pra sentir aquele perfume amadeirado, o clima tenso de quem está ansioso para que você perceba que essa proximidade pode não ser, sei lá, tão casual assim. 
Confesso não ter resistido ao jogo. Fingia não perceber porque apreciava aquela pequena tensão, o esforço que ele fazia vez ou outra pra esbarrar o braço no meu quase sem querer e me dizer um "Desculpe" daquele jeito meio tímido que nós adoramos ouvir. Depois da terceira estação, onde eu precisava descer, não sei se por um ímpeto de coragem de quem acabava de se arrepender por não ter perguntado meu nome, ou simplesmente por uma alegre coincidência, ele desceu atrás. Perdidos no meio da multidão sem poder escolher com qual estranho dividiríamos o degrau da escada rolante, olhei pra trás algumas vezes procurando aqueles olhos, aflitos, pedindo passagem, caçando os meus.
Fui a última a entrar no próximo vagão enquanto assistia ele, do lado de fora, chegando apressado mas tarde demais, colocando a mão na porta recém fechada e ambos dividindo um sorriso de pena. 
Ele, que à essa hora não deve mais se lembrar dos meus olhos, mas que me rendeu sorrisos no caminho da estação até meu trabalho, foi mais um indício do que os paulistanos andam tentando provar ao beijos, encostados nos muros, dividindo um único banco, abraços, olhares e essas pequenas paixões platônicas que construímos à cada estação (ou nem tanto)...
Sim, existe amor em São Paulo.

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