Marquei de me encontrar com uma moça às quinze horas na praça da sé.
Nos conhecemos na internet, achei que fosse um lugar bacana pra se encontrar um desconhecido, mesmo sendo ela mulher, sexo frágil, e não eu, quem devesse estar preocupada com a própria segurança. Sei lá, quis causar uma boa impressão. Peguei o metrô mais cedo e fui pro nosso destino, ansioso e com receio de ser decepcionado ou pior: de decepcionar. Essas coisas de internet nem sempre dão certo.
Acabei chegando meia hora mais cedo que o combinado. Marcamos de nos encontrar e quem sabe tomar um café. Fiquei parado no lugar combinado, dando uma conferida nos aplicativos do celular. Então aquele mendigo chegou.
No começo procurei não prestar muita atenção nele. Ele estava há alguns passos de mim, sentado no chão todo encolhido, escondendo as mãos entre as pernas, apoiando as costas no poste do orelhão e carregando uma expressão assustada. Olhava pra mim nervoso, com olhos arregalados, vez ou outra virava-se de um lado pro outro, como se procurando alguém, balançava o tronco sem parar e estralava os dedos. "Mais uma vítima do descaso público", pensei. 
Em questão de alguns minutos, vinha subindo a rua outro rapaz, este não estava bem vestido mas também não aparentava ser mendigo, vestia uma calça de linho surrada e uma camiseta branca sem detalhes. A presença do segundo rapaz pareceu causar pânico ao mendigo, que de um só pulo se colocou de pé, alerta, escondendo as mãos pra trás.
"O que você veio fazer aqui?" gritou o mendigo ao rapaz.
"Ta louco? Eu passo aqui todos os dias!" o rapaz respondeu.
"Desde quando?"
"Desde que eu arrumei um trabalho, ué"
"Mentiroso!" O mendigo apontava o indicador na cara do rapaz. "Você veio aqui atrás do meu tesouro! Vai ter que me matar primeiro!" ele gritava.
"Velho drogado! Me deixa em paz! Eu tenho que trabalhar!"
"Vai embora! Ninguém toma o que é meu! Eu não vou te dar o meu tesouro!" O velho mendigo ameaçava atacar o rapaz.
"Engula essa porcaria! Você não tem tesouro nenhum, seu velho inútil! Eu não quero nada com isso! Me deixe em paz!" O rapaz saiu empurrando o velho, que caiu no chão dando murros inúteis ao vento. Ficou observando o rapaz até que este dobrasse a esquina, depois atravessou a rua em minha direção. Chegou perto da fonte de água, onde muitos deles se banham, e olhando desconfiado para todos os lados, desencaixou uma pedra solta e escondeu embaixo dela o tal "tesouro" que escondia nas mãos. Saiu dali correndo, ainda desconfiado, toda hora olhando pra trás para assegurar-se que ninguém perturbaria a fortaleza na qual ele escondera o que possuía de mais precioso. 
Eu, por um ímpeto curioso, esperei o mendigo se afastar o suficiente, e quando já havia perdido ele de vista, fui até a fonte e levantei com cuidado a pedra na qual ele escondeu o tesouro: uma tampinha de refrigerante amassada. 
Durante o meu encontro, contei essa história para a moça tanto bonita quanto simpática que acabava de conhecer, e de como tinha ficado impressionado com a postura do mendigo.
"Impressionado por que?" ela perguntou. "Ele devia estar drogado, ou ter alguma deficiência mental. Essas coisas são muito comuns por aqui".
"Impressionado porque algumas vezes durante a vida, Sandra... Nós somos esse mendigo".
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