Há uns dias atrás eu estava tão estressada que fui parar num hospital. Pressão lá em cima, olho pulando, mãos tremendo e cabelos brancos, tudo resultado dessas ambições que a gente costuma amar e odiar ao mesmo tempo, tendo que entregar sangue alma e coração. Depois do susto de quase ter um piripaque, o médico me aconselhou a procurar alguma coisa pra espairecer pelo menos uma vez por semana, ou quinze minutos todo dia, ou um dia no mês. Ioga, meditação, música, pintura, qualquer coisa que goste e que te traga aqueles tão necessários suspiros de paz, ele disse. Então eu decidi ler. Eu adoro ler. Quase nunca tenho tempo pra isso, mas era só uma questão de organização. Separei metade da minha hora de almoço só pra me sentar no banco do parque, abrir um livro e sumir pra dentro dele. Meia horinha por dia e que olha, fez a diferença mais rápido do que eu pensava.
Logo aquela iniciativa se tornou um ritual. Eu preferia ficar sem almoçar do que ficar sem ler. Lia de tudo: livro bom, livro ruim, blog, revista de fofoca, tese científica, letra de música, tudo. Alguns amigos até me mandaram livros de presente pra incentivar. Eu me sentava sempre no mesmo banco, da mesma praça, na mesma hora, ou pelo menos onde estivesse mais vazio e mais silencioso. Até que um dia, ele chegou. 
Aquele velhinho com os olhos mais azuis que eu já vi na vida, sentou ao meu lado vestido como se não pertencesse à esse século: de boina, suspensórios e bengala. Os óculos redondinhos de armação dourada faziam parecer que ele era algum tipo de ator ou sei lá o quê.
"Eu vejo que você vem aqui todos os dias pra ler. De que tipo de leitura você gosta?"
Olhei pra ele meio impaciente. Ele sabia que eu ia lá pra ler e mesmo assim não se conteve em ser inconveniente? "Eu leio de tudo um pouco" respondi, sem tirar os olhos da revista.
"Bom, eu trouxe um livro de presente pra você. É um livro muito especial e que conta uma história linda". Ele me entregou um livro de capa azul com um desenho de uma espada na capa. 
"Esse livro é sobre o quê?" eu perguntei.
"Bem, leia primeiro e depois me conte o que achou". Ele respondeu já se levantando e foi embora.
Não contendo a curiosidade, abri o livro pra dar uma olhada nas primeiras páginas. Ele não continha índice nem informações sobre o autor e a editora. Na primeira página, uma frase escrita à mão que dizia "O infinito é tão azul quanto há de ser". Guardei o livro na bolsa e voltei a trabalhar, até me esqueci dele. 
Chegando em casa, depois de tomar um banho e colocar os pés pra cima um pouco, lembrei daquele livro e fui correndo começar a ler pra saber do que se tratava.
"No dia 22 de outubro de 1989, às 6:15 da manhã, nascia uma bela menina. Ela se chamou Ana e o seu nome significava 'Graciosa'. Ana nasceu com 2 kg e 200 g de um parto normal" Dizia a primeira frase do livro. Fiquei branca no momento em que li aquilo. Revirei as pastas no armário do quarto até encontrar a minha certidão. Todas as informações conferiam. Seria coincidência? Continuei lendo aquele livro a madrugada toda sem conseguir parar. Ele estava falando de mim! Da minha vida! Cada detalhe, com data, hora e sentimento! Como isso seria possível? Meu primeiro beijo, as minhas notas do colegial, brigas com a minha irmã, tudo! Quem era aquele senhor? E como ele poderia saber tantos detalhes da minha vida? Um sentimento misto de terror e confusão me rodeavam. Será que eu estou sendo vigiada? Tem alguém assistindo a minha vida todos esses anos? Quantos livros desse devem existir, circulando por aí? Fechei o livro e me tranquei no quarto. Pensei em ligar pra alguém, mas tive medo. Não dava pra entender o que estava acontecendo, mas era algo assustador. Continuei lendo o livro até o dia amanhecer. Ele contava exatamente tudo da minha vida, desde a infância até o rompimento com um namorado da faculdade, que foi onde eu parei de ler.
Eu precisava ir para o trabalho, mas ainda estava com medo e muito confusa. Levei o livro comigo e não me separei dele um só minuto. No horário de almoço, parei o carro um pouco longe da praça e fiquei observando. Nada do velhinho aparecer. Continuava lendo. Um capítulo todo dedicado à uma professora da faculdade que pegava no meu pé e em todos os esforços que ela fez pra me reter o diploma. Depois falava sobre o Eduardo, meu ex. Descrevia exatamente como nos conhecemos, contava detalhes dos nossos momentos mais importantes juntos, falava da nossa última briga e seguia até o dia em que eu consegui o emprego em que estou trabalhando hoje e o piripaque da semana passada.
A partir daí o meu medo triplicou.
Numa página vermelha, a única entre todas as outras amareladas, a história narrava o exato momento em que aquele senhor misterioso me entregou o livro, detalhadamente. O problema é que essa página ficava... No meio.
Suei frio. Não sabia o que fazer. Estava com tanto medo e tão confusa. Andava olhando ao redor, evitava olhar nos olhos das pessoas, não conseguia mais me livrar da sensação de estar sendo seguida ou vigiada. Voltei para o trabalho tentando não transparecer. Em um momento mais calmo, durante o expediente, resolvi abrir o livro e saber o que estava escrito após aquela página.
"Ana sentiu um imenso pavor ao ler a história da sua vida. Foi até o parque tentar encontrar o senhor que a presenteou, mas não obteve sucesso. Ao voltar para o trabalho, Ana decidiu ler o que o futuro reserva para ela. Nesse mesmo dia, ela descobriu que seu namorado de juventude seria seu futuro esposo". Essas palavras escritas no passado ecoavam na minha mente como um grito desesperado de socorro. Eu provavelmente estava pálida. Folheei o restante do livro, na esperança de que ele estivesse sendo preenchido por alguém durante algum descuido meu, mas ele estava completo. Fechei os olhos pra não ler a última frase antes do "fim". 
"Ana, você deixou seu facebook aberto aqui. Hummmm! Quem é esse Eduardo aqui que te adicionou? Gatinho ele!" Clara, a minha supervisora me trouxe de volta para a terra com essa frase, onde eu só consegui arregalar o olhos e começar a sentir tudo girando ao meu redor.
A próxima coisa da qual me lembro é acordar numa cama de hospital, com aquele livro do lado e um buquê de flores com um cartão assinado por Eduardo. "Me desculpe por tudo, espero que melhore logo". Abri o livro e comecei a lê-lo desesperadamente. O meu desmaio e a minha internação estavam minuciosamente descritos. Assim como a data em que eu receberia alta e sairia com Eduardo para jantar. A cor dos vestidos das doze madrinhas do nosso casamento. O primeiro soco no olho que ele me deu depois de uma briga, dentro de um apartamento que supostamente, compraríamos juntos. Logo depois vem o divórcio, Eduardo me ameaçaria de morte por causa da divisão dos bens, me obrigando a abrir mão de todos os meus direitos. Eu descobriria que estava grávida durante esse processo, o que resultaria numa depressão pós parto. E quanto mais próximo da última página, mais desesperador o livro ficava.
Não consegui dormir nem comer por dias. Não confiava em ninguém. Ninguém veio me visitar durante o momento em que fiquei internada, assim como o livro descrevia. Toda vez que pegava no sono, o rosto daquele senhor de olhos azuis aparecia em meus sonhos. Eu sempre acordava suada e gritando. Aquilo estava me consumindo. O medo e ao mesmo tempo a curiosidade de entender o que estava acontecendo, o que estava escrito nas últimas páginas daquele livro, quem o havia escrito, qualquer explicação que fosse suficiente para não me levar à loucura. Naquela noite, a imagem do velho em meus sonhos esteve mais perturbadora do que nunca. Acordei com o barulho de uma tempestade lá fora. Estava cansada de tanto chorar. Não podia contar pra ninguém o que estava acontecendo. Me chamariam de louca, e me internariam num hospício, exatamente como eu li no livro. No ápice do meu desespero, peguei papel e caneta e escrevi um recado para Clara, na primeira página do livro, logo abaixo da frase que já estava escrita à mão. "Clara, livre-se disso. É amaldiçoado!" Abri a janela do quarto, sentei no parapeito, fechei os olhos e, chorando, fiz a última oração: "O infinito é tão azul quanto há de ser".
Uma semana após a minha morte, Clara, que havia ficado com alguns dos meus pertences, abriu aquele livro e não encontrou o meu recado. Nas primeiras linhas do capítulo 1 as palavras: "No dia 17 de agosto de 1987, às 8:40 da manhã, nascia uma bela menina. Ela se chamou Clara e o seu nome significava 'brilhante'. Clara nasceu com 1 kg e 800 g de uma cesariana"...




"O infinito é tão azul quanto há de ser".
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