Nunca minhas metades estiveram tão opostas. Tão triste e alegremente distantes como agora.
A mulher de sorriso apagado e frases curtas e diretas foi pega sorrindo sozinha duas vezes, só hoje, por alguma razão que ela mesma não sabe explicar.
Durante todos esses dias, não sei dizer quantos são porque em algum momento essa contagem se tornou melancólica demais, ela esteve esperando por algo. Alguma coisa que, ela sentia, não fazia parte do tempo presente, tão vazio e tedioso. Algo que estava no futuro, sentado, esperando pacientemente o pequeno imprevisto de não existir acabar. Então os dias foram passando como as horas passam. Porque precisam, e não porque querem. Não como uma dádiva, algo pelo qual se agradece à Deus todos os dias. O tempo se tornou apenas mais uma das suas obrigações. Ela, que antes sabia diferenciar as tonalidades cinzas da capital, agora já não via cor nem mesmo nas flores do canteiro daquele prédio na esquina. Ela nunca soube dizer o que estava esperando. A sensação de estar faltando alguma coisa simplesmente não foi embora. E mesmo pesando tudo o que teve contra tudo o que têm, as respostas continuavam suspensas em um lugar onde ela não podia alcançar. Por vezes tentou juntar as peças de um quebra-cabeças embaralhado de histórias e não conseguiu. Carregava no peito a pesarosa sensação de estar perdendo uma parte de si mesma, juntamente com o tempo que desperdiçava, esperando eternamente não se sabe o quê. Nem quem. Nem por quê.
Quando ela deita a cabeça no travesseiro, enxerga uma enorme equação matemática.
Coisas que não sabe explicar. Problemas que não existem e nem deixam de existir. Peças de exaustão pregadas nos dois olhos. As balanças, as reflexões, as conclusões à que chega, tudo parece ser sempre o começo de um novo labirinto.
Ela fez
tudo
o que podia.
Mas nunca foi suficiente,
e sempre era tarde demais.
Ela sentou-se, uma única vez, pra descansar. E ainda hoje, é forçada a pagar os preços da humanidade alheia. Ela não sabe resolver a equação. O negócio dela era pintar. Procurou receitas de onde se desliga o amor, e todas as malditas sensações que vêm com ele. Conseguiu disfarçar. Ela não fala mais em ser forte, talvez esteja cansada de ser. Dá pra ver em seus olhos, a presença perdida em algum lugar distante. Ela nem mesmo sabe onde está. Experimentou à força alguns fantasmas alheios. Engoliu à seco o gosto amargo da injustiça. Se fez de escudo, mas se feriu, e não houve quem a socorresse. Ela se refez sozinha, das cinzas, como a fênix, mas as cicatrizes continuaram no mesmo lugar.
Ela não é como a maioria.
Não pensa e não sente o provável.
Anda preocupada com coisas profundas,
Como amar de novo e o funcionamento do universo.
Enquanto alguns se preocupam com o passageiro,
ela teme a eternidade das coisas.
Tanto boas quanto más.
Alguns dizem que ela pensa demais. Mas num mundo como esse, é um dos melhores defeitos que se pode ter.
Então ela se deita pra dormir a cada noite,
respira fundo,
e faz um pedido em segredo.
Ela pede pra se tornar, quanto antes, mais uma estrela no céu.

Comentários
0 Comentários

0 comentários:

Postar um comentário