De onde eu vim, as pessoas não estão preocupadas com reações.
Nós não nos alimentamos da expressão alheia sobre o que somos ou o que fazemos.
Lá, nós simplesmente somos. Bem e mal, defeito e qualidade, erro e acerto.
Na minha terra, as pessoas que já alcançaram numerosos dias, aguardam pacientemente que os mais novos atinjam o conhecimento por meio das próprias experiências. Eles não se irritam nem se incomodam com os que ainda estão começando. Tampouco distribuem conselhos procurando poupar os pequenos indefesos das consequências de errar. De onde eu vim, nós somos amados pelo que somos e a nossa trajetória é sempre respeitada. Sempre existirá a oportunidade de ser humilde e perguntar pra alguém que, com um sorriso, está pronta a ajudar. Mas só se você quiser.
Não existem obrigações nas relações de onde eu vim. Meus conterrâneos têm a plena consciência da responsabilidade das próprias expectativas. Eles se enxergam como um ser humano único, e por isso, compreendem o quanto algumas cobranças são injustas numa relação. De onde eu vim, as pessoas ficam contentes ao receber uma ligação de alguém querido, e nem se lembram de reclamar que aquela ligação é a primeira de não sei quantos dias. O importante, é que ele ligou.
Simplicidade é o nome da minha terra. Lá vivemos algo que não se vive aqui. Nós fomos formados dessa maneira, criados por nossos pais com a liberdade de sermos o que quisermos. Não existe um conceito de sucesso que não envolva a prática pura da felicidade. Nunca um grande executivo que vendou os sonhos pela forma bem sucedida da sua sociedade seria considerado um homem de sucesso na minha terra. Ninguém espera de nós, nem posses, nem posturas, nem tendências, nem atitudes. 
Alguns nos chamam de selvagens, e nós somos. Somos a pedra bruta do ser humano. Lapidados por nós mesmos, pelo nosso próprio destino, nossas idéias. De onde eu vim nós temos apenas uma crença sobre o fim da vida: O que há depois é o que você acredita que há. Alguns de nós irá para o céu e outros apenas deixarão de existir, mas isso, por incrível que pareça, não nos divide. 
De onde eu vim, nós somos ensinados a dar importância aos sentimentos, tanto nossos quanto dos outros. Sabemos que todas as coisas procedem da forma como nos sentimos. Nossas ações e nossas decisões são inevitávelmente influênciadas por eles. Aqui, engolir o amor ou a raiva é considerado tão prejudicial quanto fumar um maço de cigarro por dia. Mas nós somos treinados desde cedo, nas casas e escolas e sociedade, a não permitir que os sentimentos nos dominem. Existem problemas na minha terra. Existe dor, suor e lágrimas. Corações partidos, amores não correspondidos, inveja, medo, tudo. Mas nós não somos controlados por tudo isso. Aprendemos a nos importar, sempre, com o ser humano ao lado, porque nós somos o ser humano ao lado de alguém. 
As palavras mais usadas no nosso idioma são "Me desculpe", "Obrigada", e "Por favor". Nós também abusamos dos quase ditados "Eu entendo", "Posso te ajudar de alguma forma?" e "Eu te amo" (o sincero, não o falso). Eu nunca vi ninguém falando da forma como se fala aqui. Lá ninguém promete o céu e as estrelas por amor, e nunca vi coisa mais estranha do que chamar o outro de "meu universo". De onde eu vim, quando nós amamos, amamos sempre e completamente. Fazemos um pacto com nossa própria consciência de cuidar, apoiar, respeitar a outra pessoa; natural, interno, quase inconsciente. Palavras não são necessárias e nós jamais alimentaríamos um amor com mentiras. Isso quebraria toda sua essência! É uma das coisas mais absurdas que acontecem por aqui.
Eu não sou desse lugar, e esse universo não me pertence. (Sim, de onde eu vim nós não pertencemos ao universo, somos donos dele).
Não sei dizer como vim parar aqui, o que saiu errado, ou mesmo a grande lição que preciso aprender para entender as razões de existir nesse universo confuso. Apenas vivo os dias com a sensação de estar no lugar e tempo errados. Carregando entre as mãos a esperança de algum dia encontrar o meu caminho.

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