24 de maio de 1989.
Ao mesmo tempo em que ela parecia estar sendo levada pelo som de Legião, dançando devagarinho, de olhos fechados e sorriso leve; de vez em quando me olhava meio séria, meio desconfiada. A gente ficou um bom tempo conversando com os olhos. Eu tentando dizer pra ela que estava ficando cada vez mais hipnotizado, e ela alternando a vibe daquele som com olhares penetrantes como facas, que não diziam nada além de querer me dizer alguma coisa. Estou pra descobrir o que é capaz de prender um cara mais do que um enigma. E eu, é claro, já estava preso no dela.
Eu não sabia que ela estaria lá. Na verdade, eu mal a conhecia. Uns amigos da faculdade me convidaram pra tomar umas cervejas numa tenda que eles montaram de frente pra um rio, tipo um camping. Eu passei pra pegar outro amigo e nós fomos pra lá no meio da tarde no meu Gol quadrado. Quando eu cheguei ela estava encostada numa árvore, com o olhar perdido pra longe, mas eu nem prestei atenção nela. Dei Oi pra galera e peguei uma cerveja. Ela saiu do transe em que se encontrava e veio aumentar o som, reclamando. "Pô galera, aumenta isso aê. Eu adoro essa música!". Foi daí que ela começou a dançar. 
Eu não tentei disfarçar as sensações que ela me causou. Olhava pra ela com cara de fome, quase sem piscar. Mas ela não se deixou intimidar e continuou dançando, um detalhe que tornava tudo ainda mais provocante. Entre uma volta e outra ela lançava aquele olhar bem sério, quase triste, que terminava com um sorriso de canto de boca, enquanto eu continuava ali, paralisado. Não sei se pela pele morena ou pelos cabelos compridos brilhando na luz do sol. Só era uma coisa gostosa de se ver.
Dados uns minutos, depois de perceber que estava tudo ficando óbvio demais, consegui desvencilhar meus olhos dos dela. Comecei a fazer o jogo de observá-la só enquanto ela parecia não perceber, como se eu não me importasse, como se eu não estivesse intensamente inclinado à arrancá-la daquele lugar sem nem saber o seu nome. O velho amigo orgulho me impediu de perguntar o nome dela pra alguém. Eu também não queria correr o risco de concorrer com algum amigo que poderia não ter percebido ainda a onda maravilhosa de sensações que ela tinha o poder de causar. Fiquei na minha um pouco.
De repente, ela saiu andando em direção ao pier pequeno que havia na beira do rio. Eu fiquei observando ela se sentar ali sozinha, abraçando as pernas e perdendo o olhar em algum ponto de novo. Dado o último gole da minha cerveja, tomei a decisão de que não haveria outra chance como essa, e sem dar palavra à nenhum dos meus amigos, fui atrás.
Sentei do lado dela, sem olhá-la. Ela me devolveu a provocação de não me olhar. Abracei as pernas, imitando sua posição e suspirei bem fundo. Ela finalmente olhou pra mim, deu um sorriso de leve, com a cabeça deitada nos joelhos.
"Sabe Jorge, eu vou morrer amanhã".
Ficou apreciando a minha reação, expressada por olhos arregalados e uma postura totalmente alerta. Depois desviou o olhar do meu sem dar explicação e ficou no horizonte, nem se importando com o fato de eu a encarar.
"Como assim, vai morrer amanhã?"
"Assim: morrendo amanhã, ué"
"Você está doente?"
"Não que eu saiba"
"Jurada de morte? Devendo pra bandido? Sabendo demais?"
"Não. Não. E não"
"Então..." eu olhava pra ela confuso.
"Não sei dizer porquê. Eu só estou sentindo isso: hoje é meu último dia. Amanhã eu vou morrer. Como isso vai acontecer, não sei. Mas te digo uma coisa: Acho que não vou morrer sozinha"
"Quantas cervejas você tomou?"
Ela me olhou com um sorriso debochado.
"Loucura não é?"
"Totalmente"
Ficamos os dois em silêncio alguns minutos. Ela, com o pensamento perdido em algum lugar, e eu decidindo se era tarde ou cedo demais pra sair correndo dali. 
"Olha..."_ela falou. "Se eu morrer mesmo amanhã, existem algumas coisas que eu preciso te dizer" Pausou a fala pra dar um suspiro e me olhar daquele jeito meio triste meio sério mais uma vez.
"A primeira coisa é que não existe uma receita pra ser feliz. Aliás, ser feliz não é uma receita. A gente só aprendeu a dizer pros quatro cantos que esse é o nosso objetivo, mas a verdade é que muita gente passa a vida fugindo disso. Então, por favor Jorge, não se deixe prender por essas mentiras vendidas por uma sociedade vendida. Dentro de você já existe um caminho, você só precisa enxergar. A outra coisa é sobre esse caminho. Ele é seu. Não é de mais ninguém. Não se atreva a pensar que o caminho dos outros está errado, o que é passo seu será dado pelos seus pés, e o que é passo dos outros, mesmo que pisado exatamente no mesmo lugar, pode dar outro resultado. Está pegando as metáforas?"
"Não..."
"Ótimo. Não é a hora ainda. E essa é a terceira coisa que eu quero te dizer. Não vou colocar um nome nisso. Não vou buscar a definição disso na religião, ou na filosofia, nem mesmo na ciência. Mas falando aqui, entre nós, de uma perspectiva da minha breve vida nesse universo: Tudo acontece exatamente da maneira que precisa acontecer"
"Predestinação? Sério?"
"Dane-se o nome disso. Eu só sei que, por mais próximo ou distante que esteja o seu final, quando ele chegar assim bem perto de você, você vai olhar pra trás e perceber como cada coisa, cada pequena coisa, faz muito mais sentido olhando de um plano maior. Cada dor, cada lágrima, erro, palavra dita, palavra não dita, decisão, tudo. Tudo o que doeu precisava doer, e o que fez sorrir precisava fazer"
"Por quê?"
"Por que tudo isso é o material de construção de quem você é hoje".
"E se eu quisesse ser outra coisa?"
"A pergunta é: Você quer?"
"Não sei"
"Sabe. Em alguma parte dentro de você. Onde todas as respostas se escondem, onde cada pequena curva está desenhada, onde aquela sensação maluca de estar ou ter estado no lugar certo na hora certa, passa a fazer algum sentido".
Eu fiquei em silencio, evitando olhar nos olhos dela, tentando não digerir tudo o que estava ouvindo, mas ela trouxe o meu rosto pra perto com as duas mãos e me beijou.
"Ame bastante. Todos os dias se conseguir. Sinta menos, não tem necessidade de exigir tanto assim de você. Você trata seu corpo como uma máquina, dizendo pro espelho o tempo todo que você é forte mas você não é! Você é humano, caramba! Não está escrito em lugar nenhum que é errado chorar!" ela gritava comigo entre lágrimas e beijos, sem dar importância ao meu olhar assustado.
"O que é que vai haver depois?" eu gaguejei.
"Não sei, Jorge. Eu espero te ver mais uma vez".

No dia seguinte, ela foi manchete nos jornais por causa de sua morte em um acidente horrível com mais quatro familiares. Eu fiquei em estado de choque. Em parte, por não saber o que fazer com todas as perguntas que sobraram ecoando dentro de mim. E em parte, pelo modo tão triste de descobrir o nome dela.

Saudade de você, Alice.
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