Já me envolvi com teatro algumas vezes durante o ensino médio, em projetos do governo e aulas avulsas com alguns professores. Atuar parece muito com escrever. Ambos exigem do seu físico e da sua mente, num equilibrio complicado de sustentar. Ambos querem ver você se despir de si mesmo, pedaço a pedaço, cada pequena característica, e depois remontá-lo de todas as formas mais loucas e desordenadas, construíndo um ser completamente novo feito de você. Quando você atua ou escreve, cada uma dessas ações se torna um público, faminto e sedento, esperando você terminar de tirar todas as máscaras pra se contentar. 
Ao contrário do que muitos pensam, quando se atua ou se escreve, ao invés de apenas vestir personagens, você os reproduz com todas as suas partes. Não só aquelas que constroem o seu ser em complexidade e personalidade, mas de todas as outras partes que compuseram a sua história desde o último até o próximo segundo. O personagem é alguém que foi fabricado com tudo o que você já viu, leu, ouviu, sentiu, provou, passou, e passará. Você nunca  pode compor ou mesmo atuar um ser completamente novo se em seus ingredientes não estiverem presentes partes de você. É por essa razão que tanto ator quanto escritor precisam estar o tempo todo consumindo, vivendo, colecionando partes, somando características, visitando o futuro e fazendo longas (e dolorosas) viagens ao passado, tudo através da mente.
Eu possuo inúmeros personagens. Dou a eles nomes e personalidades, mas todos são na verdade Bharbaras em outras versões. Algumas com mais açucar. Outras com mais pimenta. Outras são meninos. E alguns, mais delicados e produzidos minuciosamente, são a minha história contada em uma mistura de gestos feitos e palavras não ditas. E essem machucam bastante.
Pra construir esses personagens foi preciso muito mais do que me desmontar. Eles teriam sido fáceis se eu apenas tivesse que destrinchar todas as facetas da minha própria personalidade. Esses são feitos de passado, de presente, de expectativas e de mim. Pra juntar as suas peças às vezes é necessário re-visitar lugares onde há muito não se pisava. É preciso conhecer melhor os estranhos e os amigos. É preciso segurar amores para sorrir e soltá-los para chorar. E mergulhar no mar do esquecido tentando salvar os pedaços do que você mesma jogou. É por isso que muitas histórias escritas por mim ficaram sem um final, feliz ou infeliz que seja. Eu não aguentei pisar descalça nos espinhos da minha própria inspiração. A boa notícia é quando você se apaixona por um deles: chegar no fim do caminho com papel e caneta é o mesmo que entregar-lhes o final digno que nós esperamos receber. Desenhar os seus passos com letras, mesmo sabendo no íntimo que aquela fala ou diálogo, aquele gesto ou aquela postura, são partes de algo que talvez você adoraria esquecer; é único ato que une os dois mundos onde ambos (você e seu personagem-amor) estão vivendo. Seja qual deles a realidade ou o sonho.

"Então, eu o vi de longe sentado no banco da praça. Exatamente onde eu estive no dia em que decidi subir aquela colina, por mais banal que esse detalhe seja agora. Ele me olhou com aquele olhar de novo. Olhos que eu já havia visto, lido e ouvido tantas vezes, olhos que já me disseram mais verdades do que sua própria boca, e que agora eles me diziam algo que eu não conseguia entender. É como se eu houvesse desaprendido aquele idioma de olhar. Ou como se aqueles olhos estivessem apenas me olhando em silêncio. O problema é que em se tratando de Theo, o silêncio também fala, e às vezes mais que as palavras. Durou poucos segundos, e eu saí dali sem escutar o que seus olhos diziam. Voltei pra casa repetindo a mesma frase na cabeça, sem ao menos me importar se o pensamento se tornaria verbal. A minha única preocupação naquele momento era me convencer do que estava dizendo à mim mesma: 'Anne, não importa mais. Não importa mais', eu sussurrava".

O menino da Torre.

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