“O que está acontecendo com você?” ela me perguntou naquele tom meio agressivo dela.
“Não tem nada acontecendo comigo” eu respondi.
Ela me olhou impaciente. Existem pessoas pra quem a gente, por mais que tente, não consegue mentir. Depois de certo tempo perto demais, os sinais ocultos de nós passam a ser mais claros para elas. Mesmo desviando os olhos, mesmo colocando firmeza na voz, sempre vai haver algum detalhe pra nos entregar.
“É pra MIM que você está tentando mentir? Sério mesmo?” ela pressionou.
“Não estou tentando mentir, eu só não sei explicar o que é”.
“Bom, deve ser alguma coisa muito séria então, né?”.
“Porquê diz isso?”.
“Se alguém já me deu explicações sobre coisas complexas nesse mundo foi você. Conselhos, orientações, palavras de força, risadas, tudo sempre veio de você. Agora eu to sentindo que você precisa disso tudo, mas não consegue nem admitir! Onde está aquela garota que tinha uma vida... Como é a palavra que você gostava? Amazing. Cadê a sua ‘Amazing Life’ agora?”
Também são poucas as pessoas que possuem o privilégio de poder nos confrontar com as verdades que a gente passa o dia todo evitando, sem se preocupar em receber de volta uma tonelada de acusações. São pessoas que nós sabemos que, mesmo dizendo coisas doloridas e conscientes disso, a intenção nunca é nos machucar. É mais fácil ouvir essas perguntas pesadas de alguém que você sabe que quer ouvir você. Que deseja ver você se levantar.
“Eu acho que eu não pensei muito bem quando disse aquelas coisas” eu respondi.
“Que coisas, menina?”
About having an Amazing Life” eu esbocei um sorriso meio sem graça.
“Ou será que não está pensando muito bem agora?” ela me disse.
“Ah, já sei tudo o que você vai me dizer... Não precisa nem me mostrar aquelas fotos de gente doente, passando fome, que perdeu tudo e outras coisas. Todas verdades bastante inconvenientes que não mudam nada” eu caí na cama.
“Mas é claro que eu não vou dizer essas coisas! Sobre gente que tem de fato motivos pra não ver graça na vida, sobre o lugar que o passado deve representar no presente (nenhum), sobre como ter uma visão positiva do futuro pode mudar as coisas, não vou te falar que não existe nada de errado em ter Esperança, e nem em como você está sendo babaca, porque você já sabe de tudo isso, não sabe?” ela respondeu.
Olhei pra ela com a expressão de quem diz “Me poupe”.
“Mas tem uma coisinha que eu quero dizer pra você, que talvez você não saiba, Sweetheart. No mundo existem coisas boas e coisas ruins. Nós vivemos todas elas. Então existem tanto boas razões quanto razões ruins pra se estar vivo. A gente é quem escolhe essa razão. Alguns vivem pelos outros, outros vivem por si mesmos, alguns vivem pelo mundo e tudo o que há nele, outros vivem pelo que há depois desse mundo. Da mesma maneira que você encontrou um motivo pra se convencer que a sua vida não faz sentido, você também já encontrou razões pra dizer que ela é maravilhosa...” eu a interrompi com um olhar de “Por favor não toque nesse assunto” e ela entendeu.
“Eu sei que você não quer ouvir o seu motivo. Mas sabe porquê, Sweetie? Porque você também sabe que esse motivo não é justo com você. Se alguma pessoa errou, te deixou alguma marca ou cicatriz, isso não importa agora. Olha quantas você carregou até aqui. Você é toda cicatrizes amorzinho, e eu estou pra ver alguém mais forte que você! É só uma questão de escolha, de mudança de foco. Se você colocou sua razão no lugar errado, poxa, que merda né? Agora tira. Escolhe outro lugar, aproveita a experiência, e começa tudo de novo. O máximo que a gente pode fazer é torcer pra fazer a melhor escolha do momento. Não há garantia de que nada vá mudar. Você me entende, Sweetie?” ela brincava com meu cabelo enquanto eu evitava os olhos dela. Odeio chorar na frente dos outros.
“Entendi sim”.
“Ótimo, então eu vou trabalhar. Quando eu voltar quero a minha irmãzinha de volta, ok?”
“Ok” eu respondi.
Ela saiu e eu fiquei ali, decidindo à qual pensamento ceder. Se alguém como eu merecia ter uma pessoa assim de presente na vida, ou se estava mesmo na hora de escolher ser feliz.

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