Há um tempo atrás, eu conheci um cara. Na verdade foi ele quem me conheceu. Digo isso porque, naquela época, eu estava imensamente preguiçosa de conhecer qualquer pessoa. Tratava à todos na base do 'oi' e isso já era suficiente. Ele pareceu não se importar. Foi cordial como só os homens de educação antiga aprenderam a ser, até um tanto intimista, mas sem me violar nem me invadir. Me cumprimentou sorrindo despretensioso, seguro, arruinando por segundos toda a minha postura de durona, mesmo sem saber.



Então eu olhei pra ele como quem olha para um grande desafio e o aceita. Naquele tempo, eu queria fazer todos os corações de brinquedo. E ele, como se tudo fosse uma grande brincadeira, aceitou. Me deixou à vontade como meninos não sabem fazer, apenas homens. Entrou no meu jogo, aprendeu as regras sem que eu precisasse ditá-las, e me mostrou sem palavras, que tinha valor demais pra ser só mais um brinquedo.

Definitivamente, eu não estava preparada pra ele. Quando ele chegou na minha vida, foi como receber uma visita com a casa de pernas para o ar. Mas ele esteve sempre tão à vontade com a minha vida bagunçada, minha fuga, meus sentimentos, minhas histórias, que para não perde-lo, fiz dele um amigo. Ele me viu chorar diversas vezes por alguém que não conhecia. Me emprestou o colo e secava meu rosto com paciência. Não mentiu, não foi frio, nem superior, por incrível que pareça: ele admitia o ciúmes e o medo da mesma forma que admitia a minha humanidade. Mais do que analisar ou compreender as verdadeiras razões por trás de toda a minha aspereza e distância, ele me aceitava, e isso sempre foi algo inexplicável pra mim.

Mulheres, eu tenho uma revelação pra vocês:

Ele me ouve.

Isso mesmo. Note que eu não disse "escuta". Ele me ouve. Me dá crédito. Segue os meus conselhos desde o primeiro dia. Sem nunca, anotem isso, nunca sequer ter questionado a minha qualificação (ou ausência dela) pra aconselhar um homem de trinta anos.
Ele me ouve, me admira, me protege, me quer o tempo todo perto, o mais perto possível.
Esteve ali, ao longo de um ano árduo, esperando pacientemente que as minhas feridas finalmente cicatrizassem e eu me desse conta de que ainda sou capaz de gostar de verdade, sem medo.

Ele sempre se atrapalha quando tenta usar palavras doces pra me impressionar. Daquele jeito fofo, que faz a gente rir. Aliás rir é com ele. Ri de todas, mas todas, as bobagens que eu digo.
Aguenta meus dias de tpm com a mesma paciência que suportou todas aquelas lágrimas e reclamações. Eu nunca pude ser tão aberta, tão direta e tão transparente com outra pessoa como posso ser com ele. É o telefone dele que me vem à memória quando o chão parece abrir sob os meus pés e eu só preciso de segundos de paz. Ele provavelmente vai me dar conselhos atravessados que eu mal vou entender, mas o tom da voz, preocupada e doce ao mesmo tempo, é o que me acalma.

No começo eu sentia falta de estar com um homem de mais convicções.
Com alguém que sempre sabe o que dizer e como dizer. Quis estar com alguém responsável por nós dois, que não se perderia comigo nas ruas de Veneza nem tomaria bronca do chefe por atraso. No começo eu senti falta de afinidade, de conversas profundas, de falar do sentido da vida, de física e química, de como o universo funciona. Mas essa falta toda é compensada quando somos nós dois e um violão, e quando ele canta pra mim todo tímido, as minhas músicas favoritas do Coldplay.

Eu sempre dizia "Obrigada" pra ele. Obrigada por me amar, me aceitar, me ouvir, me entender, e por outros milhares de pequenos gestos que eu nem fiz por merecer.
Hoje eu não preciso mais agradecer.
Por ser recíproco. Por ser de verdade. Por eu ter finalmente entendido que sim
Ainda sou capaz de acreditar.

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