Trilha Sonora:



A janela estava molhada do lado de fora mas não houve chuva esta noite. Talvez resultado de uma mudança brusca no clima. De manhã teve neblina, agora está sol. Melhor abrir.
Inspirei aquele cheiro intenso de cidade grande. Asfalto, carro, poste de luz, cachorro de rua, criança de bicicleta, viatura. Pobres daqueles que ainda não perceberam a diferença entre estar aqui ou em qualquer outro lugar. Alguns odeiam, outros amam, e ainda há os que não têm tempo pra nenhum dos dois.
Na mesa da sala permanece a pilha de papéis desarrumados que passei a noite rabiscando. Esse tem sido o único caminho que encontrei para despejar um pouco de tudo isso que penso e que sinto, e que às vezes tenho a sensação de que pode me engolir a qualquer momento. Escrevo. Transcrevo. Recrio. Uma pilha de cartas que talvez sejam lidas mas jamais serão enviadas. Qual a diferença então, entre expor e enviar, já que a expectativa é sempre a mesma? Você me perguntaria. O problema é não saber quem é (ou quem são) de fato, os meus destinatários. 
Pego alguns papeis para ler porque não me lembro exatamente de tudo o que escrevi. Estava bêbada de sono. "O que faz a flor enquanto é flor? E o rio, e a árvore, e o pássaro? O que fazem quando o são? Ser". A frase rabiscada sobre o esboço do que parece ser um lírio desenhado em HB, não me disse muito ao espírito. 
"Estivemos empenhados em alimentar a fome. Aprendemos a caçar ou produzir o que nos sacia. Arroz, feijão, elogios, ego inflado, presentes caros, amigos falsos, status, sobrenome. Todas as gotas de suor foram gastas, juntamente com os preciosos minutos que vivemos, a nos curar da fome. O que conquistamos no fim? Alguns obesos de corpo. Outros anêmicos de alma".
Segurei aquela folha de papel A4 nas mãos com firmeza. Meus olhos estavam obcecados pelas palavras que acabei de ler. Por um instante, eu desejei poder contaminar mais alguém, único que fosse, com a verdade com a qual eu acabara de me conectar a partir daquele texto. Foi daí que o processo começou de novo. Lápis na mão, ponta afiada, escrita fina:
"Estimado Senhor,
Isso mesmo, você leu corretamente. Estimado. Estimo você.
Não, não me refiro à seu tipo físico bem cuidado. Também não estou falando da chave de carro pendurada no bolso. Este mesmo, nessa calça de grife que até lhe cai muito bem, mas que até agora eu mal havia percebido. Você também possui belos olhos, mas não são esses o objeto da minha estima. Ah, e por favor, não sorria! Isso poderia aumentar ainda mais o sentimento que lhe tenho. Ouvi falar do seu nome também. Me disseram coisas maravilhosas à seu respeito, mas eu não as estimo, infelizmente. Antes de lhe encontrar, estive dando uma olhada no futuro, que me informou lhe aguardar com novidades cada vez mais promissoras, e que você deve muito apreciar, mas não agradam a mim. Tudo bem, deixe-me explicar melhor.
Estimo todas as lágrimas que já rolaram sobre seu rosto. Seja qual a razão de cada uma delas, medo, dor, culpa, decepção. Também tenho apreço pela sua cara amarrada às oito da manhã, quando lhe vejo passar na padaria acompanhado de uma nuvem negra sobre a cabeça. Quando lhe vejo tomando a decisão errada, lhe estimo ainda mais. Tenho estima sobre a soberba e o orgulho que você dissemina no tom de voz. Do olho assustado que as pessoas aparentam ao ouvi-lo, mas você não percebe. Sobre as suas falsas esperanças e sobre o que você não conseguiu. Tenho estima pelo seu lado negro, pelo ser humano podre que existe em você.
Estou lhe escrevendo essa carta com a intenção de me desculpar.
Não é que eu seja incapaz de enxergar aquilo que tantos enxergam em ti. Jamais culparia alguém de lhe jurar amor eterno ao primeiro instante, pois não haveria ato mais verdadeiro. À mim também um dia encantaram as incontáveis qualidades que você possui. Mas me não contive em estimar-te ainda mais quando fraco, ou errado, ou sujo ou qualquer outra coisa que nem todos os olhos enxergam. Sinto se estive sempre tão aquém de suas expectativas em gestos e palavras. Mas se é verdade que somos missionários nessa vida, preciso lhe dizer que passo longe de estar aqui para alimentar o ego. Meu nome é alicerce. Costumo ser aquilo que sobra quando as virtudes já foram corroídas pelo tempo e a vitalidade não presta mais serviço.
Com esta apresentação encerro. Meus cumprimentos e votos de muita sorte".
Ao desenhar com o lápis o ponto final dessa carta, senti como se acabasse de aterrissar na Terra vinda de alguma dimensão distante. Precisei lê-la novamente. E de novo. E de novo.
Depois de muito pensar como, quando, porquê e principalmente para Quem eu escrevi tudo isso, no insucesso de encontrar um nome, assinei num envelope e mandei entregar: 
"Carta ao Tempo".
Os correios devem conhecer milhares de loucas como eu.
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