Hoje aconteceu uma coisa engraçada. Eu estava tomando café na padaria em frente ao prédio do escritório quando ele passou. Assim: bem na minha frente, à menos de um metro de mim. Na hora em que vi não deu pra ter certeza se era ele. Barba por fazer e cabelo curto, um pouco diferente. O lugar estava bem cheio e não deu pra segui-lo com o olhar até onde ele provavelmente se sentou. Dei um sorriso involuntário e continuei lendo a minha revista.
Fazem 4 anos. 
A verdade é que você sempre carrega essa expectativa dentro de você. De ver (olhar de longe), de saber como está, onde está, com quem, está feliz, está infeliz, conquistou os sonhos, chegou finalmente onde queria, casou-se? O que acontece é que você acaba tendo que aprender a administrar essa expectativa e curiosidades pra que elas não roubem todo o seu tempo. Então durante esses anos, a quantidade de vezes em que eu me fiz essas perguntas foi diminuindo cada vez mais. 
Quatro anos de desamor não são quatro anos de tempo.
São quatro anos ensaiando diálogos que talvez jamais aconteçam. Engolindo palavras. Recriando cenários. Tentando matar sentimentos de fome. Tentando enterrar expectativas em algum espaço do peito, que como mortos-vivos, sempre acabam emergindo. Anos evitando estar em certos lugares, ouvir certas músicas, esbarrar em certas pessoas, quase tudo tão certo como o incerto de não amar mais. Depois do primeiro ano, você começa a desejar que tudo isso deixe de ter qualquer significado. Ter o poder de voltar no tempo e apagar cada segundo vivido. Não, não é sobre arrependimento que estamos falando aqui. É sobre não ter que ver o amor mais lindo se tornar o proibido. Lugar proibido. Nome proibido. Música proibida. Malditos 1460 dias. 
Ao contrário do que se possa imaginar, não é o que houve entre nós no passado que me faz lembrá-lo. É o que acontece em mim. As mudanças que eu vejo estampadas no espelho do quarto sempre acabam me fazendo pensar se ele também teria mudado tanto. Quando o conheci eu era uma garota que usava boné pra trás e tinha um perfil em todas as redes sociais existentes. Essa mulher que aparece agora de vestido e tomando café preto em frente ao escritório é novidade.
Fiquei dois anos em Paris e não me apaixonei. Primeiro, porque não era esse o meu objetivo. E segundo, porque peguei uma certa aversão ao apaixonar-se. Me dá arrepios só de imaginar mais alguém me dizendo adeus ao telefone e terminar com "eu te amo". Houveram homens, claro. Franceses, Italianos, Brasileiros, Alemães. Haverão homens sempre. Não faço parte do time que sonha com um sobrenome novo. 
No começo as pessoas sempre vinham com aquela esperança. Fazendo perguntas otimistas pra criar na cabeça um final feliz. Pessoas gostam de finais felizes porque eles são tão raros quanto estrelas cadentes. Depois de algum tempo, elas procuram não comentar. Tem medo de fazer doer a expectativa não alcançada de conto de fadas. E por fim, elas se conformam porque o passar do tempo já definiu que não era pra ser. Pessoas ingênuas. Não foi o tempo quem fez isso, fomos nós. O tempo só interfere pra mudar aquilo que somos incapazes. O resto fica por nossa conta e por conta das nossas decisões.
Terminei o café e a revista e fui para a fila pagar. Meu Deus que caixa mais lerdo.
Agora, sobre o que vou te contar, acho que nem mesmo o mais renomado escritor seria capaz de descrever com precisão o tamanho do frio na barriga que eu senti. Umas dez montanhas russas do parque de diversões mais perigoso devem valer.
"Esse vestido ficou bom em você"

Wow.
Quatro anos.
E em sua voz
Nada mudou.
Quatro anos.
Como quatro dias.
Horas que sejam.
E esse cara que acaba de elogiar o meu vestido
Tem a mesma voz
Daquele maldito "Eu te amo"
No telefone.
Foi ontem?

"Ah, Obrigada. Bem melhor que aqueles jeans largos e bonés de antigamente, né?" eu sorri, sem graça, quase sem me virar. Ele concordou com a cabeça e com sorriso.
"Você está trabalhando aqui perto?"
"Sim, naquele prédio ali da frente".
"Humm".
Paguei o meu café, torcendo para que o meu descuido não transparecesse o nervosismo.
Ele era o próximo da fila. "Tchau!" eu disse antes de sair.
"Tchau querida, bom rever você".
Eu saí. Fui trabalhar.
Hoje fazem 12 anos. O proibido está morto. O tempo fez o trabalho dele. Nós fizemos o nosso. E a minha história, enfim, guardada no peito. 
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