Fazem 4 horas.
Eu prometi que não iria contar, mas olhar no relógio era inevitável naquela sala de embarque. Um no meu pulso, o visor do celular, o do pulso desse cara barbudo sentado ao meu lado, aquele enorme preso à parede com ponteiros enormes me encarando. Acho que sou a única nessa sala que consegue ouvir os tique-taques. 4 horas e meia agora.
Eu não gostaria que as coisas fossem desse jeito. Na verdade estar aqui esperando esse voo neste exato momento nunca fez parte dos meus planos, pelo menos não conscientemente. Já havia comentado com ele algumas vezes essa vontade de conhecer Paris, talvez num futuro nem tão distante, mas com certeza juntos. Agora eu estou aqui sentada com malas ao meu redor e um bilhete aéreo nas mãos rumo ao desconhecido, e meu Deus, como isso é desconfortável. 
Eu poderia ter ficado. Poderia ter continuado a andar naquele caminho mesmo sozinha. Ter forças para continuar ou não passa longe de ser a questão. O fato de eu estar aqui já significa que esse não é um problema de forças. Mas você percebe o exato momento onde está trilhando um caminho que não é seu, quando o outro resolve seguir. Só então todos os passos dados passam a não fazer mais sentido, e nem mesmo o objetivo que vocês procuravam alcançar em comum explica as escolhas que foram feitas, simples e puramente, porque esse não é o seu caminho. É de um outro alguém. É dele.
Vamos para a quinta hora. Isso significa que faltam 45 minutos para o meu embarque.
Eu fico pensando na infinidade de pessoas que gostariam de estar ocupando o meu lugar agora. Fico pensando se é absurdo demais pensar que eu também gostaria de trocar. Me imagino oferecendo esse maldito bilhete pra uma senhora que passa na minha frente e indo embora. Desistindo dessa ideia maluca de vaga de emprego em Paris. Mas é exatamente o fato de que qualquer pessoa que eu conheça estaria em êxtase por essa oportunidade, e também de que bem no fundo, eu sempre quis estar aqui, é que me impedem de desistir de tudo.
Aquela velha história sobre concessões.
Me peguei sorrindo sozinha ao lembrar das palavras dele ao telefone. Tive que disfarçar.
"Vou deixar a chave do apartamento com Nancy". A chave do apartamento que acabamos de comprar e que há poucos dias estávamos discutindo sobre qual cor pintar as paredes da sala. Nancy é a nossa vizinha. Uma velhinha simpática que gosta de me ensinar a cuidar das plantas.
"Desejo tudo de melhor pra você". Normalmente, eu não questiono o que as pessoas me dizem. Acredito que cabe à cada um responsabilidade sobre a veracidade daquilo que diz. Então, se alguém diz que me deseja o melhor, acredito nisso. Mas sinceramente: Será?. Será que ele deseja realmente o melhor pra mim? Será que estou diante de uma alma tão nobre capaz de estar contente caso eu volte casada com um francês e feliz? Não é meu objetivo. Mas estar aqui também não era e veja só.
"Espero um dia reencontrar você". Essa aqui, ou era mentira ou burrice demais. É como soltar seu cachorro na rua e dizer "Olha, não tenho condições de manter você agora, mas gostei muito da sua companhia, então quem sabe um dia desses, se a gente se cruzar por aí e eu estiver melhor..." Oi? Pois é. A diferença é que eu não sou um cachorro. E que não é preciso esperar um noivado inteiro e a compra de um apartamento para se dar conta disso.
"Eu te amo" ele disse. Mais uma vez. E aquela foi uma das primeiras vezes em que eu desejei nunca mais ouvir isso, de ninguém. Essa frase sim, por mais que eu não quisesse questionar, tinha um gosto amargo de mentira.
Faltam 15 minutos. E eu me sinto ridícula toda vez que olho para a porta, porque parte de mim sabe bem o que estou esperando. Estou esperando o meu agora ex-noivo entrar por ela, me oferecer uma nova relação. Essa sem promessas nem expectativas. Nem planos, nem mentiras, nem compromissos, nem 'eu-te-amos'. Estou esperando qualquer milagre que me tire do sonho de estar trabalhando durante não se sabe quanto tempo na cidade dos apaixonados. Por incrível que pareça, eu só gostaria de ter a minha vida de volta. 
Me levanto e pego as malas assim que o meu embarque é anunciado. Na minha mente correm frases de auto-ajuda desesperadas. "Você fez tudo o que podia". "Tire as lições necessárias e siga em frente". "O seu futuro está nas mãos de Deus". Mas nenhuma delas fez tanto efeito ao meu coração partido quanto a que eu acabei dizendo no momento em que joguei a minha chave no cesto de lixo perto da entrada.
"Dane-se a Nancy".
Coitada. Nem imagina que um dia foi a força que eu precisava para subir no avião.


Comentários
1 Comentários

1 comentários:

  1. Inebriante o seu texto. Claro, direto, sem voleios que nada acrescentam. Gostei muito. Me fez muito bem ao ler.
    Muito obrigado por postagens sempre muito interessantes e belas.
    Um grande abraço, Bharbara!

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