Típico dia quente e abafado na zona leste de São Paulo.
Nós nos misturamos entre as pessoas andando apressadas de um lado para o outro, cada um com um determinado destino, uma ou outra tarefa a fazer. Eu voltava do banco.
Essa semana li em algum lugar um artigo que falava sobre técnicas para se tornar mais auto-confiante. Usar óculos escuros era uma das dicas contidas no texto. Eu, particularmente, uso e abuso da talvez falsa, mas muito reconfortante sensação de anonimato que os óculos trazem. Isso nos garante o pequeno poder de cruzar os olhos de quem se quer, ou mesmo ignorá-los, sem ser percebido. Então eu estava andando confiante e distraída como sempre no meu short jeans surrado, camisa meio aberta e óculos escuros, com o pensamento perdido tentando não me esquecer de alguma coisa, quando olhei pra ela.
Um relance só. Coisa rápida. Ela era tão anônima quanto qualquer uma das centenas de pessoas que cruzaram meu percurso de casa até o banco. Algo nela me chamou atenção. Algo entre o longo cabelo loiro, olhos azuis e grandes, penetrantes, emotivos, a pele clara avermelhada pelo sol, a pouca idade, os pés sujos calçados num chinelo. A imagem de uma jovem bonita sentada na calçada de uma dessas padarias que mais parecem um boteco, implorando um segundo da atenção de quem passava, para que pudesse vender seus panos de prato, brigando com a pessoa que eu enxergava através da imagem dela. Algo nela me dizia "essa moça não devia estar aqui".
Eu até procurei ignorar as milhões de sensações que a presença dela me causou, pelo menos até que o sinal de pedestres ficasse verde e eu pudesse esquecer os olhos claros na próxima esquina. Mas nem mesmo o número enorme de pessoas que a ignoravam conseguiu me influenciar a fazer o mesmo. Voltei alguns passos pra trás, e parei bem na sua frente, sem retirar os óculos escuros.
_"Quanto custa?" perguntei.
_"Um é dois, três é cinco" ela respondeu.
Fiquei parada um tempo, observando ela, enquanto ela esperava que eu me decidisse. Os panos de prato na verdade, pouco me interessavam. Eu estava absurdamente curiosa a respeito dela. Sua história, seu nome, seus erros e acertos, suas condições e tudo o que a trouxe à uma posição tão complicada, e sendo menos modesta, deplorável.
Então eu me sentei no chão, do lado dela. Sem dar nenhuma palavra. Fiquei ali. Ela me olhou, assustada, esperando que eu desse alguma explicação, talvez imaginando à qual grupo dos loucos eu pertencia. Tirei um cigarro da bolsa.
_"Você fuma?" perguntei.
_"Não..." ela respondeu.
_"Muito bom isso". Acendi o cigarro. "Sempre achei fumar uma burrice. Pena que percebi isso tarde demais" respondi, com um sorriso de canto. Ela sorriu de volta, ainda confusa. Levantei os óculos até a cabeça. Olhei nos olhos claros dela.
_"Qual o seu nome?" perguntei.
_"Ana. Ana Maria".
_"Ana... Legal. Bonito nome. É de algum parente?"
_"Eu tinha uma avó chamada Ana e outra chamada Maria"
_"Imaginei".
Um breve silêncio desconfortável se seguiu entre nós duas, enquanto ela me olhava com cara de expectativa, esperando que eu desse alguma explicação.
_"Você não deve estar entendendo nada, né Ana?" eu sorri pra ela.
_"Não muito..."
_"Você é uma moça bonita sentada na beira da calçada vendendo pano de prato. Não fique ofendida. E também não me olhe com essa cara, não estou dando em cima de você. Mas existe alguma coisa, alguma coisa intrigante no seu rosto, que me diz que você poderia estar em qualquer lugar, fazendo qualquer coisa. Daí um gêniozinho mais irritante que pernilongo ficou cutucando dentro de mim, querendo saber porquê. Porquê você está aqui?"
Ela sorriu.
_"Eu moro com meu pai há duas quadras daqui. Nós sempre moramos nessa casa, eu e ele, o meu avô deixou ela de herança pra minha mãe, que morreu quando eu tinha 15 anos. Depois que ela se foi, o meu pai teve um câncer grave no estômago. No começo ele ia sozinho às consultas, enquanto eu estava na escola. Mas logo ele perdeu o emprego na marcenaria e sofreu algumas internações. Eu acabei não terminando o ensino médio. Durante o dia procurava emprego e durante a noite cuidava do meu pai no hospital. O câncer se espalhou para outros órgãos e eu vi meu pai lutando pela vida durante muito tempo. Cheguei a trabalhar em algumas coisas. Fiz faxina, vendi chocolate no ônibus, fazia bolo, trufa, várias coisas. Alguns parentes nos ajudavam no começo, mas depois sumiram todos. Tem gente que diz que seria melhor pra mim se meu pai morresse. Ele já não anda direito e nem se alimenta sozinho. Passa o dia na cama e toma muitos remédios. Rezamos juntos todas as noites para que ele não tenha nenhuma outra crise e não vá parar no hospital. Se isso realmente acontecer, eu poderia retomar os estudos e começar tudo do zero. Mas uma parte de mim vai com ele. Tudo o que eu tenho de mais precioso é meu pai. Então pra mim, não faz tanta diferença estar aqui vendendo esses panos. Contanto que eu possa estar por perto quando ele precise, e colocar a nossa comida na mesa, já está bom".

Eu continuei ali por mais um tempo, aproveitando da suavidade na voz e a leveza que a presença dela causava. Contei um pouco de mim, dos meus projetos e da faculdade, mesmo sentindo que tudo isso tinha ficado tão pequeno comparado à força e ao coração daquela moça. Disse que escrevia textos na internet e que provavelmente escreveria sobre ela. Nós demos risada juntas e eu a ajudei a vender alguns panos com uma dose de carisma. Desejei o melhor pra ela e para seu pai, e disse que sempre que possível iria passar um tempinho ali. Ficamos amigas, eu e a Ana do pano de prato. 
A decisão de me sentar para conversar com ela poderia ter me custado caro. Mas dizem que as coisas mais preciosas estão escondidas nos lugares mais difíceis de encontrar. Ana Maria me ensinou muito sobre simplicidade, amor e respeito. Me fez avaliar e reavaliar valores, objetivos e ambições. Mais do que tudo, ela conquistou a minha admiração. Talvez ainda mais do que grandes nomes que eu tinha como modelo e exemplo de conquista. Pelo menos até aquele dia.

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