Eu já não precisava mais fazer o meu pedido direto no bar. Clara, a bela garçonete loira do St. Patrick's me trouxe um copo de uísque sem gelo assim que terminei de acomodar meus pés no banco à minha frente. Aprecio este lugar. Suas formas requintadas e cores sensuais. A quantidade de pessoas rindo, conversando e flertando, que quase sempre torna tudo muito íntimo, muito aconchegante. As flores negras desenhadas na parede em fundo bordô. E sobretudo, a grande poltrona vermelha de veludo bem ao lado da janela, que sempre está disponível no fim do meu expediente, e é de onde eu posso observar prazerosamente a movimentação desse lugar que é quase como meu segundo lar.
Eu estava concentrado em alguma coisa assim que ela entrou. E então todos estavam concentrados nela. Vestia um longo preto quase transparente e botas de salto alto. Tinha os cabelos minuciosamente penteados em cachos largos sobre os ombros. Pele radiante e lábios vermelhos, os olhos marcados e marcantes. Ela sorria pretensiosamente para um lado e para o outro, apreciando os segundos de silêncio tomados por sua causa. As outras mulheres lhe lançavam olhos de rancor, enquanto os homens imploravam pra que seus olhos se cruzassem com os dela. Eu apenas observava seus gestos de braços cruzados. Depois de certa idade aprendi que as palavras pouco falam por nós mesmos. Ela, mesmo sem ter dito uma palavra à ninguém ali, já havia me contado muito da sua história.
Ave de caça, procurando as presas do alto do céu. Olhou em volta até perceber que eu era o único ali que não pertencia à um bando ou grupo. Presas fáceis andam sozinhas, mas só quando se é um péssimo caçador. Ela parou em frente à mim e me lançou um olhar lascivo. Empurrou meus pés do banco com os seus e se sentou. Pernas abertas, mãos apoiadas na ponta, tronco inclinado, olhos penetrantes, famintos por uma reação.
Eu permaneci imóvel, exceto pelo sorriso sarcástico no canto da boca, retribuí as facadas com os olhos, não me deixei vencer. 
Ela, surpresa, cruzou as pernas, provou do meu uísque e acendeu um cigarro, enquanto fingia desprezar a minha presença e a insistência do meu olhar. 
"Aposto uma boa garrafa de vinho que sei o seu ponto fraco" ela disse me evitando os olhos, porém sorrindo.
"Aposto que antes disso já terei descoberto o seu" respondi.
"Então temos um homem pretensioso aqui..." ela tragou.
"Amor" eu respondi.
A intensidade dessa palavra quebrou um pouco de sua postura forte e segura de si. Rápida e imperceptivelmente, se fosse outro homem que ela tivesse escolhido para desafiar, ela se recompôs e sorriu, irônica.
"Amor, é só uma palavra forte e comprometedora, que as pessoas usam para aprisionar as outras contra tudo o que existe lá fora para se viver" respondeu.
"E o que existe lá fora para se viver além de amor?" eu perguntei.
Ela se inclinou em minha direção, apoiando-se nos braços da minha poltrona, fitando-me profundamente nos olhos, soltou a fumaça do cigarro lentamente no meu rosto.
"Liberdade" sussurrou. Voltou para sua posição enquanto eu terminava de a observar. Pobre mulher. Pobre alma.
Inclinei-me em sua direção apoiando o joelho em uma das suas coxas, eu a segurei pelo pescoço carinhosamente, minha boca percorreu as proximidades do seu ombro até a sua orelha, onde eu proferia as palavras mais sinceras que já havia dito.
"Sinto muito que tenham quebrado o seu coração. Desfeito os seus planos, mentido palavras doces, roubado minutos dos seus sonhos, talvez lágrimas dos seus olhos..." não me contive em beijar o seu pescoço, àquela altura já me encontrava embriagado pelo seu perfume. "Mas não estou disposto à nada disso, senhora. Amei todas as mulheres com que estive, algumas por horas, outras por dias, e outras por vidas..." ela segurava meu pulso com firmeza e enlaçava uma perna na outra de olhos fechados. "Se você me quiser, senhora, será amada imediatamente".
Ditas essas palavras, voltei ao meu lugar. Ela abriu os olhos lentamente, e com um suspiro triste, levantou-se e foi embora.
Pobre Mulher.

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