Escuta, tem um punhado de coisas que eu gostaria de dizer à você.
Talvez você nem vá me ouvir até o fim.
Talvez você apague essa mensagem antes de ouvir minha voz.
Talvez o meu nome esteja te dando repulsa.
Mas ainda existem algumas singelas coisas que eu preciso dizer.

Não foi vingança, foi cansaço.
Você poderia pensar que estava fazendo a sua parte, mas ainda faltava muito pra saciar a minha fome. Não sei se algo assim é fácil de entender, veja bem: é como oferecer uma migalha de pão à alguém que foi engordado com banquetes. 
Estava escuro e frio.
Você deve ter passado pela mesma sensação. Por isso eu acho que essas mudanças radicais em você nunca foram intencionais, assim como não foram as minhas. Acabei descobrindo o quanto somos vulneráveis ao espaço e ao tempo. O quanto nossos valores são frágeis. Aqueles de verdade, não aqueles que tentamos exibir pra todo mundo. Então eu pensei, por um momento, que você estivesse morto. E que alguém profundamente confuso e vazio houvesse renascido das suas cinzas.
Eu caminhei muito tempo assim.
Engoli milhares de decepções à seco, às quais, em nenhum momento, culpei você. Decepções não são nada mais do que expectativas frustradas, e expectativas são sempre nossa responsabilidade. Daí você me ensinou a simplesmente não esperar.
Não, não foi por raiva.
Mas eu segurei firme na primeira mão estendida após meu último suspiro de exaustão nesse caminho. Eu decidi que precisava, e merecia. E mesmo assim não consegui viver completamente a oportunidade. Hoje eu me arrependo, e apesar do esforço, decidi viver o recíproco.
Aquele dia eu não te liguei.
O plano era ser invisível até a linha de onde era justo. Mas acabei tendo muitas surpresas ruins. Vi resultados que nunca imaginaria que viriam de você. Esperar é um erro. Não esperar também.
Daí eu meio que perdi o controle e por não saber mais quem você era, me esqueci de quem era eu.
Sim, eu disse umas coisas à seu respeito.
Mas talvez a interpretação mal-intencionada se deva ao gosto amargo que eu sentia na boca ao proferir o seu nome. Na verdade eu quis ajudar. E acredito que você saiba disso. O que me surpreendeu foi a voracidade e velocidade à qual você agarrou a primeira prova que conseguiu contra mim. Como quem diz "Finalmente!". O que é isso, afinal? Culpa? Ódio? 
Daí as coisas foram contra o meu planejado.
Eu me senti culpada no momento em que considerei a hipótese de ter causado qualquer problema à você. Me esqueci um minuto das coisas podres que encontrei no caminho assinadas com seu nome. Me esqueci da indiferença que não plantei mas vinha colhendo à certo tempo. Aliás esse é o principal motivo de ter assinado um ponto final à sua espera: Um sábio amigo Gay uma vez me disse "Querida! Se está colhendo o que não plantou, só pode estar no campo errado, Gata Realiza!".
Eu tentei consertar.
Já liguei concordando com a maioria das coisas que ouvi de você. Mas ambos sabemos que Cazuza rebolou no túmulo ao te ouvir. "Suas idéias não correspondem aos fatos" é o que eu pensei. Nem uma das suas palavras, tão precisas e carregadas de um sentimento exagerado (ao qual, eu acredito, está fazendo mal à você), condiz com qualquer atitude sua. Só o tom da sua voz já afirmava que tudo o que eu gostaria de dizer seria tão impotente quanto é tentar ser franca com alguém assim.
Depois disso, muito coincidentemente (me desculpe a acidez), 
você passou a tentar me provar algo que até então, eu não duvidava.
Então eu percebi que você estava apenas tentando provar a si mesmo, tipo um paradoxo.
Eu resolvi gravar essa mensagem, agora tão banal,
porque sou ansiosa demais para esperar a defesa da vida,
humana demais para não me importar,
e babaca demais para deixar de acreditar que isso mude alguma coisa.
*Suspiro*
Era isso. Boa noite.

O rapaz ficou ali, sentado ao lado do telefone, contendo uma expressão séria e milhares de pensamentos que há muito tempo não era obrigado à ceder. 

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