Chegou um motoboy no escritório. Ouvi o burburinho das meninas levantando das desktops pra ver quem é que havia recebido flores, mas eu fiquei na mesa concentrada em alguma anotação. As flores eram pra mim. Um enorme buquê de rosas vermelhas decoradas com brilhos e um cartão. Algumas fizeram comentários sarcásticos sobre a minha frieza, mas o que eu posso fazer se não estou surpresa? Forcei o já tão manjado sorriso amarelo, acomodei as flores sobre a mesa e tentei encenar um suspiro de satisfação, que saiu com um sorriso meio torto o qual eu culparia o cansaço mais tarde. Pra variar, me esqueci de ler o cartão. E pra ser sincera: não sei onde eu guardei, se é que o fiz.
Ao chegar em casa, ouço as mensagens da caixa postal.
"Oi amor, como foi o dia no trabalho? To com saudades de você, linda. Me liga quando chegar, pra eu ouvir um pouquinho a sua voz?" diz a voz no telefone.
Suspiro, mas não é de satisfação.
Na parede do meu quarto, um mural de fotos nossas, por todos os lugares onde dividimos experiências desde que éramos grandes amigos. Desde que, depois daquele dia cansativo e pesado, depois de tanto tempo sem pele, sem toque e sem carinho, ele se atreveu a brincar com meu cabelo enquanto ouvia com paciência cada reclamação. O susto me fez enxergar a forma diferente como ele me olhava há não sei quanto tempo. E depois de milhões de desculpas e muito relutar, vencida pelo meu próprio cansaço, eu disse sim.
Ele me trás café na cama.
Me olha bem fundo nos olhos com a mão no meu rosto e deixa escapar um sorriso.
Não esconde por um segundo sequer que me admira, que me gosta, me quer.
Me abraça firme pela cintura enquanto estou na cozinha e sussurra um "eu te amo" bem baixinho.
Ele fala pouco, ri de tudo, abre mão da razão quando estou nervosa e não curte futebol.
E eu, deitada ali na cama de barriga pra baixo, com as mãos apoiando a cabeça, me perguntava quem era a mulher daquelas fotos. À quem pertencia aquele sorriso, que nunca foi meu? E porquê, meu Deus, por quê eu não conseguia olhá-lo da mesma forma? 
Metade de mim tentava me convencer de que esse amor que faz as músicas terem sentido e ver cor nessa vida cinza, esse amor que faz a gente sorrir sozinho que nem bobo na rua, e que a gente fica ansioso pra olhar alguém de perto, na verdade é algo banal. Penso no quão duradouro foi o casamento da minha bisavó que, coitada, passou 50 anos casada com um estranho que não era nem metade desse cara bonzinho que está comigo agora. Falo pra mim mesma no espelho que não se deve colocar sentimentos na frente de ações. Que preciso continuar tentando. E que um dia desses, posso achar nos olhos dele a cor que estou procurando. 
A outra metade diz o quanto sou injusta. Me joga na cara as ligações que eu não atendi, as mensagens que eu não respondi, e as milhões de dores de cabeça que eu inventei. Me fala que era melhor estar sozinha e dar uma chance de felicidade à esse rapaz que luta tanto por um sorriso meu. Que estou sendo mais uma dessas mulheres babacas que não valorizam os bons homens e que andam sendo apedrejadas em redes sociais. Que devem existir mil outros olhos que se apaixonariam em questão de segundos pela dedicação desse rapaz. Ou pela maturidade dele. Ou por todos esses pequenos detalhes que um amor platônico nunca poderia me proporcionar. 
E durante essa briga entre as minhas metades,
caio no sono. E depois de horas mascaradas de minutos,
Acordo assustada num dia novo batendo à janela.
Me arrumo pro trabalho, faço tudo o que é preciso fazer
E sem que eu perceba,
Vivi mais um dia com esse rapaz no bolso,
Do lado esquerdo do peito,
Mas pra fora do coração.

Até quando?

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